Castanheira: Joelinton, se eu te contasse…

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Entrevistei Joelinton por chamada de vídeo em julho de 2019. Contratado por 40 milhões de libras junto ao Hoffenheim, da Alemanha, ele havia acabado de se tornar aquela que, até então, era a maior contratação da história do Newcastle. O clube do nordeste da Inglaterra ainda não havia sido adquirido pelo trilionário saudita Mohammed bin Salman – considerado o dono de clube mais rico do mundo. Os tempos, apesar de nem tão longínquos assim, eram de fato diferentes.

Joelinton era um jovem centroavante que havia se destacado na Bundesliga. Chegava ao Newcastle junto ao técnico Steve Bruce para integrar um modesto elenco, cujo as projeções apontavam briga na parte de baixo da tabela (e assim foi).

Na entrevista feita por mim a serviço do LANCE!, Joelinton disse que sempre havia jogado de centroavante, desde a base. Que até gostava de sair da área, mas que seu lugar era dentro dela, “segurando a bola para os jogadores que vem de trás”. Quanto coisa mudou…

À época, também disse que o futebol inglês seria mais corrido e teria que se adaptar. E como se adaptou.

É, Joelinton. E se naquele julho de 2019 eu me revelasse um viajante do tempo e te contasse que, quase quatro ano depois, você estrearia com gol pela seleção brasileira atuando praticamente como um segundo volante, vestindo um uniforme preto?

Brasil
17/06/23 - 16:30

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É claro que você não acreditaria. Mas a cor da camisa, por um motivo triste, e a nova posição não seriam as únicas surpresas. “Quatro anos? Levou isso tudo?”, consigo te imaginar perguntando.

Afinal, naquele tempo, Joelinton já era visto como um projeto de camisa 9 para o Brasil – carente até hoje de um titular confiável da função.

Mas tudo foi como e quando havia de ser.

As primeira temporada na Premier League foi sem brilho e de solidão como referência de um ataque cercado por um futebol “bruto” e de muitas bolas longas – marca do limitado Steve Bruce.

No dia em que a compra do Newcastle foi sacramentada, em outubro de 2021, o clube ocupava a penúltima posição da Premier League. As mudanças, então, começaram a ocorrer rapidamente. Duas semanas depois, Steve Bruce foi demitido para a contratação de Eddie Howe. E na primeira janela de transferências da fase “rica”, em janeiro de 2022, Bruno Guimarães e outros reforços chegaram.

Eis o ponto de virada para Joelinton.

Howe enxergou o que alguém jamais havia enxergado: o meio-campista Joelinton. É bom destacar, meio-campista.

No Newcastle, Joelinton joga, na maioria das vezes, como meia-esquerdo em um trio, com Bruno Guimarães centralizado no vértice defensivo, e um companheiro mais à direita – Longstaff ou Willock. Às vezes é utilizado também na ponta esquerda, como um extremo intenso e construtor.

Adaptar-se, no entanto, nunca foi um problema para o pernambucano.

Se no campo sempre foi centroavante (até não ser mais), fora dele, foi mais coisas. Aos 12 anos, vendeu pastel. Aos 15, foi corajoso. Sozinho, deixou a pequena Aliança, do interior do estado, para passar a adolescência dividindo quarto com 14 garotos nas dependências do Sport, na capital Recife.

Joelinton em ação pelo Sport (Foto: Divulgação)

Aos 18 anos, foi criticado. Em 23 de novembro de 2014, Joelinton entrava em campo contra o Fluminense, na Arena Pernambuco, em sua quarta partida como titular do Sport. Para escalar o jovem, o então técnico do Leão, Eduardo Baptista foi contra boa parte da torcida do rubro-negro, que naquela altura, preferia nomes como Neto Baiano e Leonardo. Naquele dia, Joelinton marcou seu primeiro gol como profissional. Foi o bastante para Baptista fizesse uma aposta ousada – na época, tratada como chacota: “É jogador para Europa”.

Eu não sou um viajante do tempo. Eduardo Baptista talvez fosse.

João Vítor Castanheira
João Vítor Castanheira

Coordenador da PL Brasil. Ex-goleiro do time da Escola de Comunicação da UFRJ, com muito orgulho. Passou por LANCE!, Esporte News Mundo e Globo. Contra todo tipo de conservadorismo - inclusive o esportivo. Por aqui, apuração, análise, opinião e uma pitadinha de c***** de regra, porque ninguém é de ferro.