A ótima geração inglesa já merece reconhecimento sem deboche

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Escrevo esta coluna antes de Inglaterra x Brasil porque, honestamente, o resultado pouco importa. É um amistoso e as duas seleções têm baixas significativas, o que naturalmente tira o peso de qualquer julgamento mais profundo.

Mas aproveito a oportunidade para afirmar que já deveríamos reconhecer a ótima geração inglesa sem deboche – por mais que essa referência seja carregada de ironia, afinal, sou um defensor da ótima geração belga desde 2014 e, infelizmente, vi muita gente se contorcer com os acontecimentos na Copa de 2018.

E a definição de geração, neste contexto, pelo menos para mim, não está necessariamente atrelada ao sucesso da seleção nas principais competições.

Ainda assim, a Bélgica atingiu o seu melhor resultado na história (3º lugar na Rússia) com essa reunião de jogadores. E nem todos os países têm a régua rigorosa do brasileiro que navega entre título ou fracasso. Eles genuinamente ficaram felizes.

Os ingleses, ao contrário, já possuem aquela marra de fundadores do futebol. Foram campeões em 1966 (com influência da arbitragem) e, desde então, o melhor resultado nas grandes competições foi o vice-campeonato da Eurocopa em 2021. Tal postura nunca foi justificada em campo.

Nem mesmo a geração de ouro formada por Lampard, Gerrard, Beckham, Owen, Terry, Ferdinand, Ashley Cole, etc. conseguiu ir além das quartas de final. A atual, por ora menos badalada, não ganhou a Euro por uma disputa de pênaltis e também chegou a uma semifinal de Copa.

A Bélgica tinha algo especial

Percebam que já preparei o terreno para mostrar que essas duas gerações já fizeram algo relevante numa comparação histórica, certo?

Agora podemos falar dos jogadores. E o que me tornou defensor da tal geração belga foi poder acompanhá-la semanalmente nos clubes. Para um país de 11 milhões de habitantes e com uma cultura futebolística não tão forte, aquela Bélgica claramente tinha algo de especial.

Courtois, Kompany, De Bruyne, Hazard, Lukaku… Nem todos foram brilhantes ao mesmo tempo, mas sim em algum momento. Fora os coadjuvantes que fizeram carreira em clubes relevantes, como Alderweireld, Vertonghen, Vermaelen, Witsel, Carrasco, Mertens e por aí vai…

Nunca disse que era a melhor seleção do mundo. Mas, evidentemente, desprezava o deboche sempre acompanhado de uma arrogância pentacampeã mundial. O castigo veio a cavalo.

Seleção Belga na semifinal da Nations League em 2021. Foto: Icon Sport

A nova geração da seleção inglesa

Digamos que seja mais fácil não gostar da seleção inglesa. Pela postura de comentaristas, ex-jogadores, torcedores… Há mais gente para incomodar. Por isso dificilmente eu estarei torcendo por eles numa Eurocopa da vida.

Mas aqui o assunto é outro. Por exemplo:

Jude Bellingham tem 20 anos, é titular do Real Madrid e já é um dos melhores jogadores do mundo, ao menos na atual temporada.

Harry Kane, de 30, carrega o fardo de não ter conquistado nenhum título, mas é inegavelmente um dos melhores centroavantes da sua geração (olha a palavrinha aí de novo).

Foden, de 23, assumiu um invejável protagonismo no Manchester City de Haaland e De Bruyne. Passou a fazer gols sem deixar de driblar, correr, passar e pensar.

Alexander-Arnold, de 25, é o melhor lateral-direito dos últimos cinco anos. Mais recentemente, passou a jogar no meio-campo com Jürgen Klopp no Liverpool tamanha a sua qualidade com a bola nos pés. Com o confiável Walker (33) na linha de defesa, talvez faça mais sentido mesmo. Isso sem falar no talento de Reece James (24), baixa por lesão.

Saka, de 22, é o starboy. Todos viram crescer e, aos poucos, se tornar uma estrela. Do Arsenal e, por que não, da seleção. Jogador de gols, assistências e perigo constante. Ainda ouviremos bastante o nome dele.

Declan Rice, de 25, só precisava de um carimbo de clube grande. Saiu do West Ham para o Arsenal em transferência acima dos 100 milhões de libras (R$660 milhões) porque, além de inglês (e inglês na Premier League é caro mesmo!), é um excelente primeiro volante. E um dos responsáveis pela temporada dos Gunners.

Posso incluir aqui outros nomes, como Stones (29), Grealish (28), Rashford (26), Cole Palmer (21). Todos em clubes grandes e com importantes papeis no presente ou passado recente.

Mais além, citaria a temporada de Watkins (28) no Aston Villa, Maddison (27) gastando a bola no Tottenham, Toney (28) pronto para voar mais alto que o Brentford, Gordon (23) se firmando no Newcastle, Gallagher (24) no Chelsea, Brainthwaite (21) surgindo no Everton…

Enfim, a lista é grande. A Inglaterra soube trabalhar a sua base, até mesmo observando o que seus vizinhos fizeram estruturalmente, e agora colhe os frutos.

E digo isso sem garantia alguma que vá, de fato, conquistar títulos. Mas a qualidade presente merece o registro acompanhado do adjetivo: é mesmo uma ótima geração.

Inglaterra
Kane, Saka e Foden em ação pela Inglaterra (Foto: Icon Sport)
Victor Canedo
Victor Canedo

Victor Canedo trabalhou por 12 anos como repórter de futebol internacional no Grupo Globo. E até hoje mantém o hábito de passar as manhãs e tardes dos fins de semana ouvindo a voz de Paulo Andrade. Para equilibrar a balança dos colunistas deste site, é torcedor do Arsenal desde Titi Henry.