‘Chelsea B de Abramovich’: O que aconteceu com o Vitesse Arnhem

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Em meio às deduções de ponto sofridas por Everton e Nottingham Forest na última Premier League, torcedores questionaram na época por que o Chelsea também não foi punido pelas regras de rentabilidade e sustentabilidade (PSR) — o fair play financeiro da liga inglesa.

Em abril, a PL Brasil fez um compilado com todas as informações sobre o processo que envolve as finanças do Chelsea na “Era Abramovich”, explicando porque o time nunca foi punido. No entanto, nem só de Premier League vivem as sanções por fair play financeiro.

Na última temporada europeia, uma equipe ligada de forma “obscura” aos Blues sofreu o dobro da perda de pontos aplicada contra o Everton.

➡️Trata-se do Vitesse Arnhem, da Holanda, que teve uma relação tão forte com o time londrino na época de Abramovich que era chamado de “Chelsea B”.

Vivendo uma crise sem precedentes, o clube de 132 anos de história — o segundo mais antigo da Holanda — corre o risco de deixar de existir.

Na última temporada, o Vitesse Arnhem sofreu uma dedução de 18 pontos e foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Holandês pela primeira vez em 35 anos.

Como começou a crise no Vitesse Arnhem

⚠️O início da crise se deu na invasão russa na Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022. A partir dela, a União Europeia (UE) impôs sanções à Rússia. Segundo o governo holandês, o objetivo era:

  • Dificultar o financiamento russo pela invasão na Ucrânia
  • Mostrar aos responsáveis que a invasão na Ucrânia teria consequências econômicas e políticas

O Vitesse pertencia ao oligarca russo Valeriy Oyf desde 2018. Por causa das sanções impostas pela UE, ele precisou vender o clube, algo semelhante ao que aconteceu com Roman Abramovich no Chelsea.

Em março daquele ano, Oyf anunciou que suas ações majoritárias no Vitesse estavam à venda. E em setembro, tudo indicava que o comprador seria a Common Group, uma empresa americana de investimentos que já tinha experiência no ramo.

Para que a empresa norte-americana se tornasse o novo acionista majoritário do Vitesse, era preciso a aprovação da Associação Holandesa de Futebol (KNVB). Porém, antes que o Vitesse conseguisse fazer o pedido de transferência das ações, em abril de 2023, suspeitas sobre as finanças do passado do clube surgiram, o que barrou a negociação.

As “suspeitas” em questão envolviam casos de corrupção relacionados às offshores ligadas a Abramovich.

‘Chelsea B de Abramovich’

Tudo começou em março de 2023, quando o jornal britânico “The Guardian” publicou que Abramovich havia, no passado, comprado o Vitesse em um suposto financiamento secreto, no valor de, pelo menos, 117 milhões de euros. Documentos do empresário russo foram vazados mostrando a operação.

As suspeitas surgiram pela primeira vez durante o mandato do ex-jogador georgiano Merab Jordania, que liderou a compra do Vitesse em 2010.

🔄Embora ele tenha negado o envolvimento de Abramovich, o time holandês já foi chamado de “Chelsea B” depois que dezenas de jogadores do time da Premier League foram emprestados para lá entre 2010 e 2021, incluindo Mason Mount, Dominic Solanke, Armando Broja e Nemanja Matic.

O suposto esquema de financiamento envolvia uma rede de entidades offshore (contas bancárias abertas em territórios onde há menor tributação, normalmente usadas para lavagem de dinheiro) com duas empresas de Abramovich.

Documentos aos quais o “The Guardian” teve acesso sugeriam que essas entidades facilitaram empréstimos ao Vitesse por meio de intermediários ligados a Alexander Chigirinsky, um empresário russo que assumiu o clube em 2013, após a saída de Jordania.

Antes das provas virem à tona, as suspeitas iniciadas no mandato de Jordania se tornaram ainda mais fortes, já que o ex-atleta alegava que era amigo de Abramovich e Chigirinsky e que a dupla “emprestava dinheiro ao Vitesse quando necessário”. Chigirinsky permaneceu no comando do Vitesse até maio de 2018, quando vendeu o clube para Oyf.

Valeriy Oyf assistindo partida do Vitesse Arnhem, em 2019
Valeriy Oyf assistindo partida do Vitesse Arnhem, em 2019 (Foto: IMAGO/ANP)

O que concluíram as investigações

Em junho de 2023, três meses depois da publicação do “The Guardian”, o Ministério de Assuntos Econômicos da Holanda (EZK) solicitou informações ao Vitesse, como parte da investigação sobre a continuação da propriedade russa do clube. O EZK queria garantir que o time cumprisse as sanções da União Europeia contra a Rússia.

Ao mesmo tempo, a KNVB lançou duas investigações em julho daquele ano para analisar o Common Group e as ligações anteriores entre Vitesse e Abramovich.

Depois de sete meses de apuração, a KNVB decidiu por não permitir a compra do Vitesse pelo Common por falta de evidências sobre seu patrimônio, investidores e origem de fundos.

Em relação ao clube, a investigação da KNVB chegou a três conclusões em abril de 2024:

  • O Vitesse descumpriu de forma repetida os regulamentos de licenciamento durante um longo período;
  • O clube forneceu informações incorretas sobre potenciais violações das sanções à UE e também reteve dados importantes para a avaliação da venda das ações ao Common Group;
  • Documentos sugeriram que Abramovich teve controle passado ou presente sobre o Vitesse. Em relação a esse ponto, concluiu-se que era “importante aguardar a investigação do EZK”.
Roman Abramovich, ex-dono do Chelsea (Foto: Icon Sport)

Punição e rebaixamento

O clube inicialmente foi multado em 100 mil euros por não divulgar informações financeiras. Em seguida, a KNVB decidiu deduzir 18 pontos da equipe, o que a levou ao rebaixamento no Campeonato Holandês.

A dedução de pontos foi entendida pela direção como inevitável pois o balanço financeiro semestral foi apresentado incorretamente e não foi possível provar que não existia vínculo com Abramovich.

Rebaixado, com um déficit enorme nas finanças e sem fonte de renda, o Vitesse viu uma crise sem precedentes se instaurar no clube.

Após a luz no fim do túnel aparecer, a crise continua

Torcida do Vitesse Arnheim
Torcida do Vitesse Arnheim (Foto: Icon Sport)

Em 16 de maio, a KNVB confirmou a aprovação do plano do clube de transferir temporariamente as ações para a “Vitesse Forever”, o que os libertaria da propriedade russa. A decisão adiou uma possível revogação de licença de clube profissional, prevista para 10 dias depois, dando ao time mais tempo para conseguir a aprovação do Ministério da Economia e Clima (EZK).

No mesmo dia, foi anunciada a troca de advogados no conselho fiscal do Vitesse. Esse foi um passo fundamental para demonstrar que o Vitesse estava rompendo com sua estrutura de propriedade anterior e que podia agir de forma independente dos seus antigos acionistas.

No dia 17, o Vitesse confirmou que, após resposta do Gabinete de Avaliação de Investimentos do EZK, o clube poderia transferir as ações da Oyf para a fundação, o que aconteceu de forma oficial no dia seguinte.

Ao “The Athletic”, o EZK confirmou que a investigação que ligava o clube a Abramovich havia sido concluída, sem novas sanções ao clube.

Era necessário que o Vitesse encontrasse fontes de financiamento e apresentasse um orçamento equilibrado antes do fim de junho. Mas o plano da nova administração não seguiu como planejado.

Nesta terça-feira (25 de junho), o comitê de licenciamento independente da KNVB comunicou que a licença do Vitesse será revogada a partir de 9 de julho.

— A ausência de uma conta bancária e de um contador e o fato de não ter sido possível fornecer um orçamento conclusivo impossibilitam a continuação da licença do Vitesse para a temporada 2024/25.

Trecho do comunicado da KNVB.

Segundo o “The Guardian”, o Vitesse pretende recorrer da decisão. Atualmente, eles negociam um acordo de aquisição com o empresário holandês Guus Franke.

Caso a venda não dê certo, o clube poderá entrar em falência.

A investigação contra Abramovich ainda não acabou

Uma nova reportagem do “The Guardian”, publicada em maio, noticiou que novos documentos vazados sugeriam que Oyf financiou o clube com empréstimos de Abramovich.

A nova papelada indica que Abramovich foi a principal fonte de quase 200 milhões de dólares usados ​​por Oyf para financiar a Matteson Overseas Ltd, uma empresa offshore. E esses fundos foram supostamente usados ​​para apoiar o Vitesse.

Embora a investigação do EZK sobre o Vitesse tenha sido concluída, o “The Athletic” publicou que órgãos do governo, como o Serviço de Informação e Investigação Fiscal da Holanda ainda podem examinar possíveis violações de sanções por parte do clube.

Romulo Giacomin
Romulo Giacomin

Formado em Jornalismo na UFOP, passou por Mais Minas, Esporte News Mundo e Estado de Minas. Atualmente, escreve para a Premier League Brasil.