Chelsea 2004/2005: como Mourinho armou o time campeão da Premier League?

Blues superaram grandes concorrentes e conquistaram título com grande campanha

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Ben Radford/Getty Images

O Chelsea de José Mourinho da temporada 2004/2005 está entre os times mais históricos da era Premier League. Era uma equipe extremamente eficiente. Consistente na defesa e oportunista no ataque. Em seu primeiro ano no comando dos Blues, o técnico português foi capaz de montar um time quase imbatível.

Campeão do Campeonato Inglês depois de 50 anos (primeira conquista da Premier League), título da Copa da Liga Inglesa diante do Liverpool e semifinal da Champions League. Uma campanha inesquecível. Sem dúvidas, o Chelsea de 2004/2005 marcou época na Inglaterra.

E para relembrar a temporada história dos Blues na Premier League, a PL Brasil resolveu analisar taticamente como jogava aquele time comandado por José Mourinho.

Números do Chelsea de Mourinho na PL – 2004/2005:

– Melhor campanha da história naquela oportunidade com 95 pontos conquistados.

– 38 jogos: 29 vitórias, oito empates e uma derrota (Manchester City no atual Etihad).

– 72 gols marcados

– Melhor defesa da competição: 15 gols sofridos (recorde da história da Premier League).

– 57 gols de saldo

– 25 clean sheets

– Segundo melhor ataque (atrás somente do Arsenal com 87).

– Equipe com mais vitórias.

A montagem de um time vencedor

José Mourinho não foi a única aquisição dos Blues para o começo da temporada 2004/2005. Além da chegada do treinador, o Chelsea fez uma grande reformulação em seu elenco e resolveu investir bastante na janela de transferências. Ao todo, foram nove contratações e inúmeras saídas.

Nomes como o de Petr Cech, Ricardo Carvalho, Tiago, Paulo Ferreira, Arjen Robben, Kezman e Didier Drogba chegaram para aumentar a qualidade técnica e o repertório do elenco.

Com um técnico em ascensão e jogadores promissores, o Chelsea tinha o objetivo de triunfar e superar sua campanha da temporada 2003/2004.

Como jogava o Chelsea de José Mourinho?

Mourinho poderia variar o formato tático do time. Mas o ponto crucial foi a opção pelo 4-3-3. Uma linha de quatro bem compacta, um primeiro homem de meio-campo, dois interiores, dois pontas e o atacante de referência.

Essa era a formação “padrão” dos Blues que gerava vantagem diante dos seus adversários. Naquela ocasião, a maior parte dos times ingleses usavam o tradicional 4-4-2.

Esquema tático padrão utilizado pelo técnico português José Mourinho. (Foto: buildlineup.com

Porém, em jogos importantes e decisivos, como na fase final da Champions League, o treinador português também recorreu ao velho e conhecido 4-4-2.

Por conta de lesões e situações de jogo, Mourinho escalou os Blues em um 4-4-2 na Champions. (Foto: buildlineup.com)

Um dos melhores sistemas defensivos da história da Premier League

O Chelsea tinha um sistema defensivo muito forte e consistente. Fazia encaixes por zona e também utilizava perseguições individuais. Mas também, o treinador contava com a grande obediência tática dos jogadores.

Ricardo Carvalho e John Terry formavam a dupla de defesa. Nas laterais, Paulo Ferreira e Gallas. Ambos tinham a função de guardar mais a posição. Ou seja, laterais que não geravam profundidade e dificilmente chegavam ao fundo. Porém, quem oferecia um pouco mais de apoio era o jogador português.

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Ben Radford/Getty Images

Com uma linha de quatro “segura” e sempre bem postada, os Blues apresentaram um desempenho defensivo espetacular. E os números naquela edição da Premier League evidenciam isso.

Em 38 jogos do Campeonato Inglês, o Chelsea sofreu apenas 15 gols. Uma média de 0.39 tentos por partida. Um recorde na história da competição nacional, e que coroou Petr Cech com a luva de ouro. Foram 24 cleansheets do goleiro tcheco.

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E além de uma linha defensiva regular, a equipe de José Mourinho contava com um jogador crucial, Claude Makélélé. O francês era o primeiro homem de meio-campo.

Com ótima imposição física, eficiência no 1×1 defensivo e boa leitura para cortar linhas de passes, Makélélé tinha a função de ficar à frente da linha defensiva para ajudar na proteção da área.

Os Blues marcavam em blocos de marcação médios/baixos e dificilmente subiam as linhas para incomodar o rival. No entanto, a equipe tinha muita agressividade para pressionar o portador da bola no centro do campo. Com isso, o time roubava e acelerava o jogo.

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Michael Steele/Getty Images

No jogo de volta das oitavas da Champions League diante do Barcelona, em Stamford Bridge, a equipe realizou essa pressão no portador da bola para retomar a posse e atacar em transição ofensiva com muita efetividade. Foram 20 minutos de muita intensidade. O Chelsea fez três gols rapidamente e encaminhou a classificação.

Os Blues eram uma equipe que pouco sofria e que dava pouquíssimas oportunidades para os adversários. Um time extremamente capacitado para desempenhar muito bem todas as funções defensivas e atacar no erro do rival. Um time letal.

Construção ofensiva dos Blues e o fator Frank Lampard

No setor ofensivo o Chelsea também tinha um bom rendimento. Na saída de bola, a equipe londrina tinha a característica de construir o jogo com vários homens em seu próprio campo. José Mourinho optava por fazer uma saída mais sustentada com cinco/sete homens no setor defensivo.

Os laterais guardavam posição e não geravam amplitude. Já os meio-campistas interiores (Lampard e Tiago) se aproximavam do portador da bola para dar opção de passe. Com mais jogadores próximos da própria área, os Blues tinham segurança para fazer a saída de bola.

O grande diferencial do lado azul de Londres era Frank Lampard. O inglês viveu um 2004/2005 iluminado e foi a referência do Chelsea na temporada. E o seu papel no setor ofensivo era fundamental para os Blues. Vale destacar que, naquela temporada, o meio-campista foi eleito o segundo melhor jogador do mundo.

O camisa 8 era um atleta muito associativo. Estava sempre próximo ao setor da bola para participar do jogo e dar progressão ao ataque. Além disso, tinha facilidade para quebrar linhas de marcação com passes verticais e utilizar passes longos. Tanto com inversões acionando as extremidades ou buscando os atacantes em profundidade nas costas da defesa.

A sua leitura de jogo também era imprescindível. Lampard sabia o momento certo de atacar os espaços vazios e aparecer em zonas de finalização. O meio-campista foi o artilheiro do time na Premier League com 13 gols marcados e ainda contribuiu com 18 assistências.

O inglês teve participação direta em 43% de todos os gols do time no torneio. E por todas as competições, foram 19 gols e 21 assistências. Um impacto espetacular.

Mudanças no setor ofensivo e as principais armas do ataque do Chelsea 2004/2005

O Chelsea não era uma equipe que tinha como característica ter a posse de bola e realizar longas trocas de passes. Era um time que verticalizava muito bem o jogo e que sabia ser letal em transições ofensivas.

Com Robben e Duff pelos lados, os Blues apresentavam mais velocidade e desequilíbrio em jogadas individuais. Outro ponto a ser destacado era a constante movimentação e inversão de lado entre os dois jogadores, que acabava confundido a defesa adversária.

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FRANCK FIFE/AFP via Getty Images

Já com Joe Cole, o Chelsea tinha mais controle, conduções de bola e menos profundidade. O inglês ajudava na circulação com movimentos associativos pelos lados e pelo centro do campo. Era um jogador que entregava diversas funções para José Mourinho.

No comando de ataque, Didier Drogba e Eidur Gudjohnsen. Ambos revezavam como homem de referência, mas chegaram a atuar juntos em muitas ocasiões, principalmente na reta final da Champions League. Apesar de serem jogadores distintos, os dois atacantes desempenhavam uma função muito importante para a equipe.

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Um dos pontos fortes dos Blues era a construção direta. A bola longa de Cech ou dos zagueiros sempre buscava os jogadores da referência. Drogba/Gudjohnsen disputavam pelo alto para acionar os pontas que faziam a diagonal e atacavam o espaço deixado por eles.

Mas quando atuavam juntos, a dinâmica do ataque mudava. Gudjohnsen era mais participativo. Oferecia apoio para dar continuidade no ataque e se movimentava nos dois lados do campo com e sem bola. Tanto que em momentos de recomposição, o islandês ficava por dentro e o Chelsea se postava em um 4-2-3-1.

A bola parada também era uma grande virtude do Chelsea 2004/2005 de José Mourinho. Contando com a qualidade de Lampard nas batidas frontais, laterais e de escanteio, e por ter bons nomes nas jogadas aéreas como John Terry, Gallas, Gudjohnsen e Didier Drogba, a equipe conseguia gerar muitos gols nessas situações.

Um time completo. De muito repertório e competência. Dominante do início ao fim durante toda uma temporada. O Chelsea de 2004/2005 ficará marcado na história da Premier League.

Não foi uma conquista qualquer. Bater o invencível Arsenal e o Manchester United de Sir Alex Ferguson não é a tarefa das mais simples. E não só superar, mas se impor e não dar nenhum tipo de chance. A conquista representou a mudança na história do clube e para os torcedores.