Cavani no United: menos do que se queria, mais do que se espera

Uruguaio chega sem custos aos Red Devils e assume a lendária camisa 7

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Cavani United
Divulgação/Manchester United

Depois da infeliz e interminável novela por Jadon Sancho, os torcedores do Manchester United receberam em tom de alento a contratação do atacante uruguaio Edinson Cavani. Longe de ser a prioridade do clube – tanto por posição quanto por ambições a longo prazo -, o jogador de 33 anos irá vestir a lendária camisa 7 dos Diabos Vermelhos.

Após não renovar seu contrato com o PSG, clube onde atuou de 2013 até março do atual ano, Cavani chega como agente livre no Manchester United. O clube arcou apenas com as taxas exigidas pelo atleta e seus agentes. Pelo time francês, o uruguaio atuou em 301 partidas e anotou 200 gols, saindo de Paris como o maior artilheiro da história do clube.

É fato que, por conta da sua idade, ele está muito mais próximo de um déficit técnico do que do seu auge vivido no Paris Saint-Germain – ou até mesmo na Napoli, clube em que ele também marcou história antes de desembarcar na França. Contudo, o uruguaio é um dos grandes centroavantes dessa década do futebol, e sua vinda pode gerar bons frutos para os Red Devils.

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Para que a análise seja fria, ignoremos o contexto vivido pelo clube atualmente e foquemos apenas no que o atleta possui a oferecer.

A não contratação de Sancho. A estranha postura de não ir em busca de nomes para setores carentes. Toda a confusão envolvendo o CEO Ed Woodward e os proprietários da família Glazer, além das críticas apresentadas ao treinador Ole Gunnar Solskjaer e ao futebol da equipe.

Esses fatores serão ignorados para que tenhamos uma percepção mais focada no jogador em si, e que o momento caótico do clube nos bastidores não venha a influenciar na opinião sobre ele.

Cavani no Manchester United: menos do que se queria, mais do que se espera?

Cavani realmente perde muitos gols?

Há um entendimento dentro do mundo do futebol que o uruguaio, por mais que seja artilheiro por onde passou e incontestavelmente um ótimo atacante, perde muitas chances fáceis. Essa questão é um pouco complexa, e nós explicaremos o porquê.

Primeiro de tudo, é mais do que necessário esclarecer que iremos analisar apenas temporadas recentes dele pelo PSG. O Cavani de hoje, do United, não é o mesmo que despontou pelo Palermo e pelo Napoli como um goleador extremamente veloz e móvel.

Não que ele tenha se tornado extremamente lento, pelo contrário, a mobilidade ainda é um de seus trunfos, principalmente para mudar de posição de forma rápida e explorar zonas que podem se tornar linhas de passe. Mas por se tratar de um atleta consideravelmente veterano, precisamos olhar para o que ele vem sendo nos últimos anos, e não no início de sua carreira.

Segundo, darmos contexto. Sim, ele realmente perdeu algumas chances fáceis nos últimos anos, mas ele jogava no PSG. Soberano na França desde que emergiu com a injeção de dinheiro do Qatar, o clube parisiense se acostumou a estabelecer cenários de larga vantagem dentro dos jogos. Naturalmente, o novo camisa 7 red devil tinha números de gols muito altos, assim como perdia algumas chances consideravelmente simples.

Cavani
CHRISTOPHE SIMON/AFP via Getty Images

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Contudo, isso não tornou a sua estatística de conversão baixa. Existe uma métrica computada pelo Opta Data que analisa a porcentagem das ‘grandes chances' convertidas pelos jogadores no futebol. Dentro de um critério que analisa apenas finalizações que tenham um contexto de alta chance de sair um gol, eles olham quantas dessas chances foram perdidas e quantas foram desperdiçadas.

Da temporada 2015/2016 até 2018/2019, Cavani nunca esteve abaixo dos 44% de conversão das grandes chances. Se somada toda a temporada de 2016/2017 e metade da temporada seguinte, ele chegou a ter 69 gols marcados em 67 jogos, o que lhe dava média de mais de um gol por jogo. Ou seja, ainda que se diga que o atacante perde gols fáceis, os números mostram o contrário.

A nível de comparação, em um dado momento da temporada 2017/2018, por exemplo, Cavani esteve à frente de Lionel Messi e Harry Kane na conversão de chances – não apenas as consideradas “fáceis”. O uruguaio possuía 15 gols em 12 jogos pela Ligue 1, além de quatro gols em quatro jogos pela Champions League, o que lhe dava 34,1% de conversão.

Messi, naquele momento, tinha 20,1% de conversão, com 12 gols em 12 jogos de La Liga. Kane, por sua vez, alcançava 18,6% com oito gols em 11 jogos de Premier League. Cavani só ficava atrás de Robert Lewandowski, que ostentava um aproveitamento de 36,1%, com 13 gols em 12 jogos de Bundesliga.

Mas, ele ainda é o mesmo que foi até 2018/2019?

Aqui encontramos o problema da questão. Quando olhamos a última temporada dele pelo PSG, em 2019/2020, vemos números completamente diferentes do que ele acostumou a todos.

Pela Ligue 1, jogou 14 jogos, sendo sete como titular e sete saindo do banco, com uma média de 47 minutos por jogo. Segundo o Opta, o agora camisa 7 do United teve 20 grandes chances de gol no Campeonato Francês, mas marcou em apenas quatro delas. De todos os jogadores com essa quantidade (ou mais) de gols pela liga, apenas três tiveram um aproveitamento pior que os 20% dele.

Já dentre os jogadores dos melhores times da liga, ele foi o segundo que mais desperdiçou grandes oportunidades. À frente dele apenas Kylian Mbappé, com 19 grandes chances perdidas. O craque francês, no entanto, marcou 18 gols na temporada, o que neutraliza de certa forma o que foi desperdiçado.

Outra estatística preocupante é o xG (expected goals), a numerologia que avalia a possibilidade de sair um gol em determinada jogada. Dentro dessa métrica, 0 é uma chance nula de gol e 1 é uma chance extremamente clara. Em uma batida de pênalti, por exemplo, o xG é de 0,81.

Na última temporada, El Matador chutou 28 vezes, sendo 11 ao gol e 16 para fora. Dentro disso, teve um xG de 10,24. Como mencionado, marcou apenas quatro gols na Ligue 1, o que lhe deixou muito abaixo não só nas ‘grandes chances', como também nos ‘gols esperados'.

Mas, novamente, precisamos de contexto. Desde que Cavani chegou ao PSG, ele sempre figurou no time titular e teve uma grande sequência de jogos. Mesmo com a presença do sueco Zlatan Ibrahimovic, o uruguaio era peça constante no time principal – mesmo que atuasse pelas pontas, mas estava em campo.

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A sua derradeira temporada pelo Paris, entretanto, foi diferente. Thomas Tuchel passou a optar por Mauro Icardi no time titular, e Cavani tornou-se apenas uma peça do elenco. Sem sequência, é notório que o atleta perdeu não só em ritmo, como também em afinco e concentração no decorrer da temporada.

BERTRAND GUAY/AFP via Getty Images

Prova disso foi a sua decisão de não renovar com o clube para jogar a reta final da Liga dos Campeões, como fez o brasileiro Thiago Silva, e ter se desligado assim que o seu contrato terminou.

Um camisa 9 pode não ser a maior urgência do clube nesse momento, mas ter um jogador do calibre dele com certeza agrega. Marcus Rashford e Anthony Martial, que fizeram 17 gols cada na última Premier League, não são necessariamente primorosos em suas taxas de conversão. O primeiro marcou 16 de suas grandes chances e perdeu 13; já o segundo marcou nove e perdeu 10.

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Por sua vez, Odion Ighalo, o centroavante reserva imediato que Solskjaer tinha à sua disposição, não marcou em nenhum jogo de PL na última temporada. Dentro de seus 11 jogos disputados – nenhum como titular -, teve quatro grandes chances e perdeu todas.

Dadas todas as narrativas, a conclusão final é justamente o que você leu no título. Edinson Cavani não era o que o torcedor do Manchester United queria para essa janela, mas terá possibilidades altas de entregar mais do que se espera. Independente do seu retrospecto negativo na última temporada ou da sua idade, a lógica, quando olhamos para um recorte maior, é de que ele corresponda de forma satisfatória.

Por último, a parte mitológica da coisa. Como já dito, ele vestirá a lendária camisa 7 do clube. Ela que já foi usada por George Best, Eric Cantona, David Beckham e Cristiano Ronaldo, não tem sido muito generosa com os sucessores.

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Michael Owen, Antonio Valencia, Angel Di María, Memphis Depay e Alexis Sánchez. Nenhum deles deu certo com essa numeração. Caberá a Cavani, então, mudar não só os rumos recentes de sua carreira, como também de certas assombrações do Manchester United.

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