Canedo: A ‘solução’ Kane não quis ser o Totti do Tottenham. E não tem problema algum nisso

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Nunca acreditei no romantismo exacerbado que costumam pregar ao futebol do passado. Acredito, sim, que o mundo hoje é mais livre, as leis facilitam mudanças, há mais dinheiro envolvido e, consequentemente, teremos menos histórias de uma camisa só. Mas, de alguma maneira, Harry Kane trilhava esse caminho -– até que a realidade bateu à porta.

Kane deixou o Tottenham como maior artilheiro da história do clube (280 gols). Na Premier League, está apenas atrás de Alan Shearer, recorde que iria superar em no máximo duas temporadas (260 a 213) segundo a sua média.

Ele sai, também, como o maior ídolo dos Spurs. Chegou às divisões de base em 2004, assinou o seu primeiro contrato profissional em 2010 e estreou em 2011, com alguns empréstimos até se firmar como um jogador do elenco. Foram 10 temporadas consecutivas e exclusivas de dedicação e amor à camisa.

“Ah, mas o Totti ficou 24 anos na Roma”. E quem somos nós para cobrar o certo e errado aí?

Totti recusou o Real Madrid em mais de uma oportunidade no início dos anos 2000. Não estamos falando apenas de um aumento significativo de salário, mas também de status. Afinal, era o Real Madrid do Galácticos.

A história do romanista é linda, e por lá ele até conseguiu materializar suas conquistas em troféus (uma Serie A e duas Copas da Itália), mas na prateleira dos maiores jogadores das últimas décadas eu duvido que ele seja lembrado rapidamente.

E, vejam só, está tudo bem! Foi uma escolha consciente do Totti na qual ele não se arrepende.

Assim como Cristiano Ronaldo provavelmente pensa diferente ao ter aceitado a proposta do Real Madrid em 2009. Nem todos precisam ser iguais.

Não podemos nos queixar, por exemplo, de falta de paciência do Kane.

Ele renovou seguidas vezes com o clube, a última quando descobriu que não seria vendido facilmente ao Manchester City. O contrato acabaria na próxima temporada, o que lhe ofereceu um cenário com três possibilidades:

  • 1. Renovar mais uma vez e partir para uma idolatria nível Totti, com estátua e tudo, mas sem garantia de títulos
  • 2. Jogar por mais uma temporada e, na sequência, assinar com outro clube (podendo ser um rival inglês)
  • 3. Aceitar a venda direta para um clube gigantesco como o Bayern, onde provavelmente levantará algumas taças
Harry Kane Bayern de Munique
Kane trocou o Tottenham pelo Bayern. Foto: Icon Sport

Não há resposta certa ou errada. Eu seria capaz de compreender qualquer decisão, mesmo acreditando que ele é bom demais para terminar a carreira com um tópico do Wikipedia vazio.

Não sou vidente, mas esse provavelmente seria o destino de Kane no Tottenham. Enquanto colecionava micos, o clube bateu na trave apenas três vezes em todos esses anos. Foi vice-campeão da Copa da Liga em 2014/15 (para o Chelsea) e 2020/21 (para o Manchester City). E ainda chegou a uma final de Liga dos Campeões, em 2018/19, mas aquele Liverpool era demais.

Apesar de ser reconhecidamente um top-10 em faturamento no mundo, o Tottenham deixa a desejar esportivamente com certa frequência. E aqui não é um torcedor do Arsenal que escreve. Os próprios torcedores reconhecem que Kane esperou o suficiente, mas a diretoria não entregou o que ele precisava para competir por títulos (o último foi em 2007/08).

Sob esse ponto de vista, o Bayern, campeão alemão por 11 anos seguidos, faz todo o sentido. Ainda que sua caminhada tenha começado com derrota na Supercopa e muitos memes de que, na verdade, o problema era ele.

Mas podem confiar: Harry Kane está muito mais para solução.

Victor Canedo
Victor Canedo

Victor Canedo trabalhou por 12 anos como repórter de futebol internacional no Grupo Globo. E até hoje mantém o hábito de passar as manhãs e tardes dos fins de semana ouvindo a voz de Paulo Andrade. Para equilibrar a balança dos colunistas deste site, é torcedor do Arsenal desde Titi Henry.