Busquets: a lenda do Barcelona, símbolo de uma forma de jogar futebol

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O futebol será diferente agora que Sergio Busquets vestiu, muito provavelmente, a camisa do Barcelona pela última vez a nível profissional. A saída ao fim da temporada, que já havia sido oficializada por clube e jogador, foi consumada e sob aplausos no Camp Nou. A lenda se despede depois de seu nono título de La Liga com a equipe catalã.

Desde sua estreia em 21 de setembro de 2009, na goleada por 6 a 1 sobre o Sporting Gijón, foram 31 títulos e 722 jogos com a camisa blaugrana. O volante ainda não definiu para qual clube irá. Mas isso nem importa tanto assim. Busquets cravou seu nome na história do Barcelona, da Espanha e do futebol mundial como um dos expoentes de sua posição. Talvez o maior de todos.

O meio-campista se tornou intocável no Barcelona e na seleção espanhola praticamente desde a primeira vez que se tornou titular. No 4-3-3 instaurado a rigor por Pep Guardiola, é como se a posição de volante fosse feita sob medida para ele. E até mesmo quando o treinador catalão ousou com esquema de três zagueiros, a cria de La Masia seguiu intacta na escalação.

Apesar do rito que passou a ser praticado em torno a Busquets, um jogador cultuado entre analistas e torcedores que prezam pelo futebol “elegante”, ainda há o debate sobre a qualidade de seu futebol. Isso ocorre principalmente porque o volante prosperou em um contexto muito específico e que extraía suas melhores qualidades ao máximo, o que gera dúvidas acerca do seu encaixe em outros times.

Busquets exemplifica que técnica e tática são não só aliadas, mas podem transformar a carreira de um jogador e vê-lo revolucionar uma posição no esporte.

Busquets e Guardiola: a história se repete

Busquets foi criado nas categorias de base do Barcelona, celeiro do que é o projeto de criação identitária mais marcante do futebol mundial. Desde que Johan Cruyff assumiu o comando técnico da equipe, em 1988, criou-se a prioridade em introduzir uma cultura tática no clube desde os times infantis. Isso moldou gerações de meio-campistas, incluindo o atual capitão do Barça.

O maior expoente da cultura criada por Cruyff foi Pep Guardiola, volante franzino que não chamava a atenção dos demais. Ele se tornou titular absoluto e era o condutor do 3-4-3 criado pelo holandês, ajudando Romário e Stoichkov a conquistar campeonatos espanhóis e Champions League. Lembra a história de alguém?

— O Barcelona queria se desfazer de Guardiola. O clube achava que ele era muito magrinho, ruim defensivamente e fraco na bola aérea. Se não fosse por mim, Guardiola provavelmente teria sido vendido a um clube da segunda divisão – afirmou Cruyff em sua biografia, lançada em 2016.

Um dos primeiros movimentos de Guardiola quando assumiu o time principal do Barcelona, em 2008, foi promover Busquets. Ele já tinha comandado o volante no Barça B, no ano anterior, quando foram campeões da terceira divisão. A decisão foi tão consciente quanto a de Cruyff, em 1990, quando promoveu Pep.

Diferente de tudo

Busquets é um dos maiores expoentes do Jogo de Posição. Mais do que um estilo de jogo, trata-se de uma filosofia sobre como se deve, em sua essência, jogar futebol e os motivos de aplicá-lo em campo desta maneira. A ideia enraizada no Barcelona fez com que um jogador sem grandes características físicas se tornasse um dos principais nomes da sua posição na história.

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Marc van Bommel foi o titular do Barcelona de Ronaldinho Gaúcho (foto: Quinho / Icon Sport)

Antes de Busquets, o Barcelona contava com um volante de características de mais imposição física e, em certos momentos, até mesmo uma dupla mais defensiva. Foi assim imediatamente antes de Guardiola assumir, entre os anos 2004 e 2006 – que também foram de sucesso no clube. O brasileiro Edmílson, que também jogava na zaga, e van Bommel eram constantemente titulares. Nomes de mais imposição técnica, como Thiago Motta, Xavi e Iniesta não eram titulares constantes ainda.

Nomes como Gattuso, Makélélé e De Rossi, por exemplo, eram mais conhecidos pela sua capacidade física. É verdade que existem exemplos de volantes “elegantes” anteriores ao do Barcelona, mas os casos eram mais raros: Pirlo, que começou como camisa 10, foi recuando até se tornar primeiro volante no Milan; Fernando Redondo, criado na base do Argentinos Juniors, assim como Maradona, tem os argumentos da escola argentina em sua formação.

Em 2007, Yaya Touré chega ao Barcelona para ser o titular da posição e assim permanece por pouco mais de um ano, inclusive nos primeiros meses de Guardiola à frente do Barcelona. O marfinense estava longe ser um jogador apenas físico. A capacidade técnica, inclusive, o fez avançar no campo anos depois, no Manchester City. Mas não era o tipo de jogador que dominava o que Guardiola e o jogo de posição pediam: o espaço e o tempo.

Busquets, sim. Ele chega como um volante alto, magro, lento e que não reunia nenhuma característica dos principais jogadores da posição na época. E a combinação com o que estava por vir foi tão harmoniosa que, logo em sua primeira temporada como profissional. o franzino atleta completou 41 jogos. O último deles, a vitória por 3 a 1 sobre o Manchester United, na final da Champions League em 2009.

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Busquets em ação pelo Barcelona – Foto: Divulgação/Barcelona

Símbolo do jogo de posição

No esquema instaurado por Guardiola, auxiliado por Juanma Lillo e Paco Seiru-lo — dois grandes acadêmicos do futebol –, Busquets é o jogador que gere as distâncias e faz a bola correr. Isso era uma definição quase absurda para um volante na época, uma vez que a principal função da posição era “proteger a defesa” antes de qualquer coisa.

Para Cruyff, “tudo no futebol é uma questão de distância”, e o Jogo de Posição endossa essa ideia. Entre os principais conceitos da filosofia estão a relação dos jogadores com os espaços: a distância do jogador em relação à bola, ao seu adversário, ao espaço nas costas do seu adversário e ao seu companheiro. Busquets tornou-se um mestre em analisar esses cenários e ascendeu rapidamente em um time que priorizava essas relações.

O volante era especialista em simplificar o jogo. E como Cruyff também frisava, “jogar futebol é simples, mas jogar futebol simples é muito difícil” – e Busquets fazia o difícil.

Era o responsável por fazer o Barcelona se desvencilhar de sistemas de pressão alta e levar a bola à frente nas melhores condições: mais do que um passe bom, acionar o homem livre na jogada.

Identificar o homem livre também é um conceito do Jogo de Posição e este jogador ficou caracterizado na nomenclatura como “terceiro homem”. Muitas vezes Busquets segurava a bola para atrair a pressão e liberar um companheiro ao seu lado –– este companheiro é o terceiro homem, porque, mesmo que Busquets não dê o passe para ele, ele toca para alguém que fará a bola chegar ao jogador livre rapidamente. A identificação desses espaços e dessa liberdade que ele próprio ajuda a criar era um diferencial único e escasso até os dias de hoje.

Realizar tudo isso enquanto identifica e cria as vantagens ideais do Jogo de Posição (numérica, posicional e qualitativa) não é uma tarefa simples. Fazer esse trabalho enquanto esconde a sua intenção é ainda mais complexo.

Busquets chega perto da perfeição em esconder a intenção das ações. Raramente um passe é telegrafado, e mesmo que sua posição corporal indique um movimento, o jogador realiza outro. Por isso, é um jogador tão especial.

Lenda da seleção espanhola

Busquets foi um primeiro volante isolado em praticamente toda sua carreira, com dois meias à sua frente. Foi aí que o trio com Iniesta e Xavi (hoje treinador, depois substituído por Rakitic) ficou na história sob o comando de Guardiola. Na seleção, seu início ainda teve percalços. Vicente del Bosque não acreditava tão cegamente na genialidade do esguio volante como Pep, e usou um 4-2-3-1 na Copa do Mundo de 2010, com Busquets e Xabi Alonso como os dois volantes, e o mesmo se repetiu na Euro de 2012.

Nos dois casos, a Roja ainda foi campeã. O treinador da seleção também é um admirador do volante e tem uma das frases mais icônicas sobre o jogador:

— Você assiste ao jogo inteiro e não vê Busquets. Mas quando você olha para Busquets, você vê o jogo inteiro.

No entanto, o volante ganhou seu espaço cativo na Euro de 2016, depois de uma Copa do Mundo decepcionante da Espanha em 2014. Era o primeiro homem de meio, atrás de Iniesta e Fábregas, com Thiago revezando a posição. A edição de 2020 – disputada em 2021, por conta da pandemia de Covid-19 — foi o ápice de “Busi” na seleção.

Ele chegou como o líder de uma seleção renovada, praticamente sem remanescentes da grande geração de 2008-2012. Capitão, foi amplamente elogiado por sua performance, liderança técnica e de grupo. Foi o melhor jogador da equipe no campeonato, em que chegaram até a semifinal — eliminados para a campeã, Itália –, e foi eleito o melhor jogador de duas partidas seguidas, contra Croácia e Eslováquia.

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Busquets foi eleito melhor em campo duas vezes seguidas na Euro 2020 – Foto: Divulgação/Euro

Na Euro, ele deixou até mesmo Rodri, que vive grande momento no Manchester City de Guardiola, no banco. Um ano depois, fez Rodri ser deslocado para a zaga, tamanha a sua importância e a impossibilidade de substituí-lo no mesmo nível.

E se não houvesse um Barcelona para Busquets?

Um dos debates sobre o futebol de Busquets é que, em praticamente todo o seu tempo como profissional, jogou em um contexto que o valorizava. Quando Guardiola passou a usar o 3-4-3 na temporada 2011/12, o volante virou zagueiro entre Piqué e Puyol justamente para ser o centro da criação em um time que ocupava majoritariamente o campo adversário e terminou LaLiga com 69% de média na posse de bola.

Talvez o mais longe do Jogo de Posição que Busquets esteve na carreira foi durante o período de Ernesto Valverde, entre junho de 2017 e janeiro de 2020. Ainda assim, mesmo um treinador enraizado em uma cultura totalmente diferente no Athletic de Bilbao não poderia ter feito um movimento de rompimento com o que já existe há décadas no Barcelona – ele, inclusive, foi bicampeão espanhol.

A discussão sobre o encaixe de Busquets no lugar, por exemplo, de Casemiro nos novos galáticos do Real Madrid permeou durante o final da última década. Ou se ele se daria bem em uma liga mais física e intensa, como a Premier League.

Para Busquets e para a história do Barcelona, da seleção espanhola e do futebol, o importante é que ele venceu. E, parafraseando Kanye West, todos querem saber o que ele faria se não tivesse vencido: “acho que nunca saberemos“.

Guilherme Ramos
Guilherme Ramos

Jornalista pela UNESP. Escrevi um livro sobre tática no futebol e sou repórter da PL Brasil. Já passei por Total Football Analysis, Esporte News Mundo, Jumper Brasil e TechTudo.

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