Filme sobre Bobby Robson mostra personalidade cativante de uma lenda

Documentário conta a história de um dos melhores técnicos ingleses da história

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Filme sobre Bobby Robson mostra personalidade cativante de uma lenda
Stu Forster Getty Images

Bobby Robson é um dos maiores técnicos da história do futebol inglês. Com passagens relevantes por grandes clubes e tendo conduzido a seleção inglesa em duas Copas do Mundo, ele definitivamente merecia ter sua história contada.

O documentário “Bobby Robson: More Than a Manager“, disponível na Netflix, faz isso de uma maneira bastante elegante e reverente.

Com farto arquivo de imagens e com depoimentos francos de figuras importantíssimas do mundo do futebol, o filme não apenas relata os feitos da carreira de Robson, mas também foca em apresentar a personalidade cativante do treinador. Talvez, sua principal característica.

Querido por todos

“Ele tinha amigos em todos os lugares”, lembra José Mourinho. “Ele era muito generoso com jovens técnicos e me ajudou muito”, conta Alex Ferguson.

Esses dois técnicos lendários da Premier League são apenas alguns entre os muitos personagens que aparecem no documentário para dividir histórias sobre Robson e para falar do impacto positivo que ele teve em suas vidas.

Mostrar o quanto Bobby Robson era querido em todos os clubes por onde passava parece ser o principal mote do filme. Todos os entrevistados contam histórias que revelam suas qualidades como técnico e, principalmente, como ele considerava importante, e dominava, as relações pessoais com atletas, dirigentes e colegas.

Ferguson, por exemplo, relata que, quando era treinador do Aberdeen, da Escócia, foi convidado por Robson para conversar sobre futebol e a assistir a um treino dele no Ipswich Town. O detalhe é que os dois se enfrentariam no dia seguinte pela Recopa da Europa.

José Mourinho, que foi seu auxiliar durante suas passagens por Sporting, Porto e Barcelona, revela que Bobby lutou para que o clube catalão aceitasse o português em sua comissão (os dirigentes queriam alguém de dentro do Camp Nou para aquela vaga).

Credit: Netflix
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Segundo Mourinho, o técnico sugeriu usar dinheiro de seu próprio salário para arcar com o custo de seu jovem auxiliar. “Não fosse por ele, talvez eu não tivesse tido confiança para dar o salto de auxiliar para técnico principal”, afirmou o português.

Pep Guardiola, que foi seu jogador no Barcelona, lembra que, quando Robson assumiu o Newcastle, após sua saída do Barça, escreveu para ele se oferecendo para jogar pelo clube inglês. “Era um sonho jogar na Inglaterra sendo treinado por ele”, revela o catalão.

“Ele é uma das melhores pessoas que conheci”, afirma Guardiola. “Com ele aprendi a importância da comunicação, do relacionamento com os jogadores”.

Gary Lineker e Paul Gascoigne, comandados por Robson na seleção, dão depoimentos bastante emocionantes sobre como a confiança do técnico foi fundamental para o desenvolvimento de suas carreiras.

Credit: Netflix

“Bobby fez minha carreira”, afirma Lineker. “Tudo teria sido muito diferente sem ele”, completa o ex-jogador. “O melhor técnico inglês da história”, crava Gascoigne.

O brasileiro Ronaldo Fenômeno também participa do documentário. Ele comenta o quanto Robson o ajudou a desenvolver suas habilidades no Barcelona. O inglês foi o responsável por convencer o clube catalão a investir pesado no atacante, que, na época estava no PSV, da Holanda.

Aliás, um fato interessante sobre o filme é que, ao falarem sobre a passagem do brasileiro pelo Barcelona de Robson, Mourinho, Guardiola e outros se referem a ele como “o verdadeiro Ronaldo” e “o melhor Ronaldo”. Seriam cutucadas em Cristiano Ronaldo?

Robson e o Barcelona

A narrativa do filme não é linear. Ela não conta a história em ordem cronológica. O documentário passeia pela linha do tempo, indo e voltando em suas passagens por Ipswich, seleção inglesa, Holanda, Portugal, Barcelona e Newcastle.

A intenção, parece claro, é pontuar como sua personalidade e seus posicionamentos fundamentais nunca mudaram. Independentemente do clube em que trabalhava ou da situação que enfrentava.

Dessa forma o documentário constrói e apresenta a imagem de um homem querido por seus pares, determinado, profissional e obcecado por futebol, sem nunca perder seu carisma.

Mas a passagem do treinador pelo Barcelona tem, sim, um destaque maior no filme. Por vários motivos.

Shaun Botterill Allsport Getty Images
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Por ele ter assumido o clube poucos meses após uma complicada cirurgia para retirada de um câncer na cabeça (e seu médico ter sugerido sua aposentadoria). Por ter substituído a lenda Johan Cruyff em um momento de guerra política intensa dentro do Barça.

E também por ter conseguido bons resultados, conquistando três títulos, e, mesmo assim, não ter conseguido aprovação de torcedores e imprensa local.

Foi apenas uma temporada (1996/1997) como treinador do Barcelona, mas ela foi muito intensa e deixou marcas. Tanto em Robson, como no clube e em todos que trabalharam com ele naquele período. Essa passagem é muito bem explorada no documentário.

Destaque para a lembrança da partida contra o Atlético de Madrid, pela Copa do Rei. O time terminou o primeiro tempo perdendo por 0 a 3. O jogo terminou 5 a 4. O Barça seria campeão do torneio em final contra o Betis, disputada no estádio do Real Madrid. “Foi muito especial ouvir o hino do Barcelona no Santiago Bernabéu“, comentou Guardiola.

Robson não era um treinador apenas carismático. Ele também tinha talento para reformular equipes em más situações e transformá-las em times competitivos. O filme mostra bem isso. Principalmente nos casos de suas passagens por Ipswich Town (seu primeiro clube) e por Newcastle (seu último clube).

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Stu Forster Getty Images

Ele assumiu o Ipswich em 1969, com o clube sem dinheiro e candidatíssimo ao rebaixamento. Robson investiu no desenvolvimento de jogadores jovens e aos poucos construiu uma equipe que jogava um futebol competitivo e bonito.

Ele ficou na equipe por 13 anos e conquistou a FA Cup, em 1978, e a Copa da Uefa, em 1981. Títulos históricos para o clube.

Ao assumir o Newcastle, seu time de infância, se deparou com um vestiário totalmente dividido e com a equipe a caminho da segunda divisão. Em pouquíssimo tempo, Robson mudou a situação. O time subiu de produção e não mais se preocupou com rebaixamento. Inclusive conquistou classificações para competições europeias.

Ele também levou a seleção inglesa a duas boas campanhas em Copas do Mundo (1986 e 1990). O documentário apresenta algumas boas histórias dessas campanhas, bem como o tratamento feroz (muitas vezes anti-ético) que recebia da imprensa de seu país naquelas ocasiões.

Um filme que faz jus ao personagem

A parte final do filme é dedicada a contar a luta de Bobby Robson contra o câncer, situação que teve de enfrentar várias vezes durante sua vida. Por isso, ele criou um instituto dedicado a arrecadar dinheiro para pesquisas sobre a doença.

Todas as vezes em que foi diagnosticado com câncer, Robson contrariou as previsões dos médicos e voltou a trabalhar em alto nível. A exceção foi quando a doença voltou, após sua saída do Newcastle. Foi então que ele decidiu se dedicar ao seu tratamento a ao instituto.

Bobby Robson morreu em sua casa, em County Durham, em 31 de julho de 2009, aos 76 anos.

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Stu Forster Getty Images

“Robson: More Than a Manager” é um documentário muito bem feito. A edição funciona muito bem, a qualidade das imagens de arquivo é ótima, os personagens entrevistados são relevantes e as histórias contadas por eles são bastante interessantes.

Os diretores Gabriel Clarke e Torquil Jones conseguiram construir um filme que não apenas relata os fatos, mas também é capaz de emocionar. Isso porque tiveram a sensibilidade de apresentar a personalidade carismática de seu personagem enquanto contavam sua história.

O documentário é mais do que um filme sobre a carreira de Robson como técnico. É também sobre o homem que ele foi e o impacto que deixou em todos com quem trabalhou.

Lançado em 2018, “Robson: More Than a Manager” está disponível via streaming na Netflix.