O Liverpool do Boot Room pt 1: a dinastia de Bill Shankly

Lendário treinador reconstruiu o clube e iniciou o período mais vitorioso da história dos Reds

Bill Shankly

Finais europeias, elenco estrelado, reforçado e comandado por um técnico na vanguarda do futebol moderno; season tickets esgotados, favoritismo nas grandes competições crescendo, valores nas casas de apostas caindo. O Liverpool está de volta ao topo.

Em tempo, a PL Brasil relembra, num especial de duas partes, o período mais vitorioso da história do clube. Um momento que foi decisivo para o status que ostenta até hoje como um dos gigantes do futebol inglês.

Uma dinastia iniciada por um escocês socialista e mantida por uma linhagem de subalternos, preparados para assumir o time em reuniões numa pitoresca sala de chuteiras.

De 1959 a 1991, a partir do comando de Bill Shankly, o Liverpool saiu da segunda divisão inglesa rumo ao topo do futebol mundial. Além disso, os Reds conquistaram pelo menos uma edição de cada campeonato em que participava.

Sem dúvida, Shankly foi um revolucionário, reconstruindo o clube de baixo para cima, nos mínimos detalhes.

Criou um espírito de equipe e uma mentalidade vencedora resilientes. Isso foi mantido a partir da união de seus homens de confiança em um pequeno cômodo logo abaixo das arquibancadas de Anfield.

A esta sala e a este período da história dos Reds, deu-se o nome de Boot Room.

O Diamante de Bill Shankly

Shankly sempre teve grande carinho por Anfield e The Kop (Foto: Liverpool Echo)

Bill Shankly foi o início, e, por muito tempo, o epicentro de tudo aquilo. Em dezembro de 1959, assumiu como manager de um Liverpool cinco vezes campeão inglês, mas há cinco anos na Championship.

Após quinze anos de uma dedicação singular, deixou o cargo com cinco títulos nacionais, o primeiro troféu internacional do clube e um modelo de liderança eternizado na história do futebol profissional.

Tal qual a lapidação manual de uma pedra preciosa, os primeiro brilhos do trabalho de Shankly tardaram a aparecer. Foram três anos até conquistar o acesso à primeira divisão e mais dois para o primeiro título importante, o título do Campeonato Inglês, na temporada 1963-1964.

Isso porque Shankly operou uma reformulação total do Liverpool, polindo cada aspecto do dia a dia do clube à sua moda.

Sua primeira demanda, por exemplo, foi a liberação de verba para uma reforma nas salas e aparelhagens de Anfield, seguida por uma no centro de treinamento.

Já naquela época, ele tinha a real dimensão da importância do suporte estrutural no desempenho da equipe. Tinha noção também dos custos que precisavam ser arcados.

Em mais ou menos um ano, os Reds tiveram de renovar quase que completamente seu elenco, o que não foi lá um problema para Shankly, que, sinceramente, não via nível para a maioria de seus integrantes.

Quebra de tradições

O escocês tinha um olhar muito delicado para o condicionamento físico dos jogadores. Muitos atletas que herdou de seu antecessor não tinham um desempenho, nesse quesito, acima da nota de corte – além disso, claro, no quesito técnico.

Para uma maior preocupação com a parte fisiológica, era necessário uma atenção maior aos treinamentos. E aí veio outra grande revolução shankliana, quebrando com a tradição do clube e da maioria do futebol inglês de uma preparação mais rudimentar, baseada na dualidade aeróbica/anaeróbica, corridas ao ar livre e exercícios em ginásios.

Os atletas de Shankly faziam seu treinamentos com a bola no pé, longe do perigoso e irregular asfalto, no conforto dos restaurados campos de Melwood.

O que hoje parece ser um tanto óbvio, na época contradizia a visão corrente. Dessa forma, pensava-se que o afastamento da bola durante a semana deixaria os jogadores mais “famintos” no dia do jogo.

O óbvio, aliás, era constantemente desafiado nesse processo. Bill Shankly tinha uma visão panorâmica do futebol e do clube, enxergando em detalhes a possibilidade de crescimento e mudança.

Um exemplo disso foi o seu controle sobre a rotina dos atletas. Itinerários de viagens e refeições foram de atividades costumeiras para momentos ideais para fortalecer a união da equipe.

Antes, os jogadores chegavam diretamente à Melwood para treinar. Isso ocasionava uma rotina quase fabril: chegavam, treinavam, tomavam banho e iam embora.

Sinergia interna

O ponto de encontro passou a ser em Anfield, de onde partiriam de ônibus para o CT. Na volta, faziam uma refeição antes de serem liberados. Uma simples mudança que permitiu maior vigilância sobre as questões fisiológicas pós-treino.

Também, dessa forma, inúmeras oportunidades para os jogadores e comissão criarem laços, com tantas viagens e mesas compartilhadas.

A quantidade de detalhes observados era imensa, e uma andorinha só como Bill Shankly não dava conta do recado. Fiel à ideia da divisão de trabalho, depositava enorme confiança em sua comissão técnica. Dessa forma, dava funções específicas e grandes responsabilidades a seus membros.

(esq à dir): Shankly, Paisley, Fagan, Moran, Bennet e Saunders (Foto: Liverpool Echo)

A sinergia funcionou, sendo não somente o alicerce para o Boot Room como essencial para o funcionamento da dinastia que estava sendo formada.

A ideia da mudança do ponto de encontro foi de Joe Fagan, o segundo assistente, a partir de uma demanda do lendário manager.

Na hierarquia executiva do Liverpool, Fagan era o treinador do time reserva. Mas na hierarquia de Shankly, ele era um facilitador das relações entre jogadores e comissão, além de um olho a mais nas questões fisiológicas.

Completavam o grupo: Bob Paisley, primeiro assistente, o homem das táticas; Reuben Bennet, o preparador físico; Tom Saunders, olheiro de alta patente; Ronnie Moran, terceiro assistente,o disciplinador.

Mesmo com as responsabilidades divididas, enquanto Bill Shankly esteve no comando, tudo passava por sua liderança marcante. Nem sempre tratava diretamente com os jogadores, mas tinha seu respeito; não entrava, pasmem, no Boot Room, mas o controlava por completo.

Até porque era tudo muito íntimo para ele. Todo o projeto foi fruto de sua visão pessoal, sua expressão por meio do futebol.

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Trabalho nas minas

O treinador é um ícone na historia do Liverpool (Foto: Liverpool Echo)

A biografia de William Shankly não é exatamente extraordinária, mas essencial para entender o seu legado. Seu forte senso coletivo, por exemplo, pode ser facilmente rastreado à sua juventude, sendo um entre dez irmãos na pequena vila de Glenbuck, no sudoeste da Escócia, onde nasceu, em setembro de 1913.

Se já convivia com a divisão de trabalhos e responsabilidades em casa, aguçou-a quando largou a escola e começou a trabalhar nas minas, dos 14 aos 16 anos, onde teve ouviu os ecos das doutrinas socialistas do fim do século XIX.

Influente na sua formação ideológica, esse contato seria importante na formação de sua equipe – lembre-se, estamos falando de um gênio.

Das peladas descontraídas dos mineiros aos campos profissionais foram mais quatro anos, quando se profissionalizou pelo Carlisle United, em 1932. Em 1933, foi para o Preston United, onde foi um voluntarioso lateral direito por dezesseis anos.

O período, além de dar todo o conhecimento prático do futebol profissional, certamente moldou seu pensamento sobre a continuidade de trabalho. Quem sabe até lhe permitiu as fantasias de uma supremacia futebolística.

Natural de seu comportamento, “apenas” a paixão pelo jogo. Desde criança só queria saber de bola. Desde seu envolvimento profissional com ela, parecia sempre disposto a conversar sobre tudo o que a rodeava.

Técnico brilhante, Shankly foi um lateral direito comum, mas esforçado (Foto: Liverpool Echo)

O Bastião da Invencibilidade

Pessoas que testemunharam sua carreira no Preston dizem que nunca restou dúvida de que seria técnico. Orientava os mais jovens, conversava com seus treinadores e sempre parecia disposto a trocar ideias sobre futebol. Um comportamento visto em diversas lendas do banco de reservas, como Cruyff, ou, mais recentemente, Pep Guardiola.

Foi com essa bagagem, somada a oito anos de carreira na área técnica (cinco anos rodando por clubes de menor expressão e mais três no Huddersfield) que Bill Shankly assumiu o Liverpool, em 1959.

Especula-se até que um ano antes, o presidente Tom Williams e o diretor Harry Latham já o observavam, tendo-o como nome certo para a retomada dos Reds. Ambicioso, Bill não fez por menos, planejando a implantação de um espírito coletivo e uma mentalidade vencedora. Um “bastião da invencibilidade”, como costumava a dizer.

O fim e o legado do Boot Room

Vitória foi algo realmente recorrente no período de Shankly em Liverpool. Com o escocês no banco de reservas, o lado vermelho de Merseyside conquistou o Campeonato Inglês em 63-64, 65-66 e 72-73, a Copa da UEFA em 73-73, além da Taça da Inglaterra (FA Cup) em 64-65 e em 73-74, sendo este o último troféu erguido pela lenda, antes de sua surpreendente aposentadoria, no mesmo ano de 1974.

Quinze anos de um controle absoluto do clube, dos funcionários aos jogadores, dos detalhes às decisões, cobraram seu preço.

Além do natural estresse de tamanha dedicação ao trabalho de pressão diária, havia os atritos com a diretoria. Visto que havia a explosiva combinação de uma personalidade forte e de uma visão muito à frente de seu tempo.

Pela soma desses fatores e uma janela perfeita do título da FA Cup para sair por cima, Bill Shankly tomou a precipitada decisão de se aposentar, segundo suas palavras.

A dificuldade para lidar com o seu afastamento do futebol, e pior, da família que nutriu em Anfield, além, é claro, de um certo descaso dos dirigentes no tratamento de uma lenda do clube, culminou no seu afastamento do dia-a-dia do Liverpool até sua morte, em 1981.

Assim, onze meses depois, foram erguidos em Anfield os Shankly Gates, como uma homenagem e uma retificação pelos distratos.

Tão importante quanto os portões e a massiva contribuições à sala de troféus, Bill Shankly deixou um legado ao Liverpool.

Deixou um método de trabalho vitorioso e uma linha de sucessão competente, até mais do que seu próprio idealizador em no quesito conquistas, cultivada sob suas asas e valores mais íntimos – o tão mencionado e tão pouco falado Boot Room.

Sobre esta linhagem, seus personagens e suas glórias, falaremos na segunda parte deste especial da PL Brasil!