Barcelona ou Real Madrid: qual foi o ‘time da ditadura’?

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A rivalidade entre Barcelona e Real Madrid ganhou um capítulo fora dos gramados em abril, quando o presidente do Barça, Joan Laporta, deu forte declaração, dizendo que o rival seria o “time do regime” ditatorial de Francisco Franco. O clube merengue logo publicou um vídeo rebatendo as falas do mandatário culé, com imagens e informações, afirmando que, na verdade, seria o Barça a equipe predileta do governo da época.

Com a repercussão do caso, a PL Brasil resolveu aprofundar o tema para saber, afinal de contas, quem é “o time da ditadura” na Espanha.

Doutor em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Victor Leonardo Figols estudou a história do futebol espanhol em sua graduação e também no mestrado. Na faculdade, ele analisou o que aconteceu com o Barcelona durante o franquismo (período do general Francisco Franco no poder) no período de 1960 a 1970. No mestrado, estudou o clube catalão nas décadas de 1980 e 1990. Já no doutorado, estudou todo o período pós-franquista, tendo o Barça como elemento secundário da pesquisa e toda a transformação do esporte na Espanha após a ditadura.

Figols conta que não há uma resposta simples e direta para a pergunta que o próprio Real Madrid faz no início do seu vídeo: “Qual é o time da ditadura?”. Mas existe, segundo ele, um consenso entre os pesquisadores da história do futebol espanhol de que, se há algum clube ligado a Francisco Franco, é o time merengue.

Ou todo mundo era time do regime ou ninguém era, porque logo após o fim da Guerra Civil e a consolidação do Franco no poder após um golpe, há toda uma organização nas estruturas esportivas para que o esporte fosse controlado pelo Estado. Então, a Federação Espanhola teve intervenção do governo, as federações regionais e os clubes de futebol. — disse o historiador.

O vídeo divulgado pelo Real Madrid para rebater críticas do Barcelona

O vídeo divulgado pelo Real Madrid mostra uma foto de pessoas fazendo uma saudação fascista em frente ao escudo do Barcelona. Figols explicou que a imagem foi tirada de contexto. Ela se trata do evento de reabertura do Camp Les Corts (estádio do Barcelona antes do Camp Nou), meses após a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

Ao final do conflito, a Federação Espanhola investigou quais membros do conselho diretivo do Barça eram simpatizantes à República e contrários à ditadura. O clube foi obrigado a aceitar a presença de dois membros da Falange Espanhola, partido do regime franquista, na junta diretiva.

Após a investigação, duas pessoas que pertenciam ao governo passaram a integrar o conselho diretivo do Barcelona. Um deles era da Guarda Civil Espanhola que, durante a Guerra Civil, fez parte de uma “polícia paralela” de nome “Ronda Antimarxista”, que perseguia e reprimia republicanos. De acordo com o historiador, esse homem fazia parte do quadro de sócios do Espanyol, rival catalão do Barça.

Mas esse contexto não foi uma exclusividade do Barcelona. Essa situação era comum em diversos outros clubes. O Real Madrid também registrou casos de pessoas removidas de seus postos e a entrada de nomes ligados ao governo ditatorial dentro do clube.

— Há documentos que mostram que Franco tinha relações pessoais com o Santiago Bernabéu (presidente do Real Madrid). Inclusive, o Bernabéu antes de se tornar presidente do clube combateu as forças republicanas de Barcelona durante a Guerra Civil. O Real Madrid tinha uma tribuna dedicada ao Franco e não era incomum vê-lo em jogos no estádio. E, posteriormente, depois da morte de Franco, o próprio neto dele disse em entrevista que o avô torcia para o Real Madrid — conta Figols.

Sucesso europeu do Real Madrid

Barcelona Real Madrid Di Stéfano
Foto: Divulgação/Real Madrid

O Real Madrid é o maior vencedor da Champions League, com 14 troféus, sendo que 35,7% deles foram conquistados nas primeiras cinco edições da competição. A realidade é que o então dirigente do clube, Santiago Bernabéu, em 1955, teve a ideia de criar a Liga dos Campeões, e procurou Franco para ajudar na elaboração do torneio.

O ditador, então, usou o time merengue como propaganda de uma Espanha que prosperava durante a ditadura. Na época, o regime nazista de Adolf Hitler na Alemanha e o fascismo de Benito Mussolini na Itália caíram uma década antes, então a Europa estava num contexto de “desfascistização”, apesar da situação na Espanha.

O fato de o ex-dirigente do Real Madrid ter criado a Champions League e o clube merengue ter ganhado as primeiras cinco edições do torneio não é mera coincidência. Na década de 1950, surge um acontecimento que culmina no sucesso esportivo do time na Europa: o caso Di Stéfano. O jogador argentino, que pertencia ao River Plate entre 1945 a 1949, foi para o Millonarios, da Colômbia, um “campeonato pirata”, enquanto a liga colombiana estava banida pela Fifa.

O Barcelona contactou o clube argentino, que tinha os direitos econômicos do jogador, para contratar o atleta e mandou o dinheiro para o time. O craque chegou a se apresentar, treinar e até disputar amistosos na Catalunha, porém, o Real Madrid, através de Bernabéu, pagou pela transferência ao Millonarios e solicitou à Federação Espanhola para que o argentino fosse atleta merengue. A Fifa, então, disse que não poderia resolver a questão, e o assunto foi para a Delegacia Nacional de Desportos (DND) -– um órgão regido pela Falange Espanhola, ou seja, pelos franquistas.

A DND publicou uma resolução dizendo que Di Stéfano jogaria uma temporada no Real Madrid e depois outra pelo Barcelona, alternadamente. O Barça, então, resolveu abrir mão da contratação. O argentino se tornou o maior jogador da história do clube merengue até a chegada de Cristiano Ronaldo.

Depois disso, a DND criou uma regra determinando o fechamento do mercado espanhol para jogadores estrangeiros e atletas que já tinham disputado alguma competição com a camisa de suas seleções. Só eram aceitos aqueles que comprovassem descendência espanhola — filhos, netos ou bisnetos de espanhóis. Com isso, uruguaios, argentinos e paraguaios acabaram migrando para a Espanha nas décadas de 1960 e 1970.

Na época, o Barcelona contratou o paraguaio Irala. Entretanto, a DND impediu a transferência, alegando que o jogador havia servido a sua seleção. O Barça denunciou irregularidades de outros atletas em situação semelhante. Um dos casos denunciados foi do também paraguaio Fleitas, que jogava no Real Madrid, e assim como Irala, havia atuado pela seleção do Paraguai. Irala foi impedido de ser contratado, enquanto Fleitas seguiu atuando pelo Real Madrid. Mais tarde, depois de novas denúncias, foi descoberto que vários jogadores utilizaram documentos falsos para atuarem no futebol espanhol.

Inauguração do Camp Nou e ditador nomeado sócio de honra do Barcelona

Franco não estava presente na inauguração do Camp Nou, em 1957, mas o evento contou com o Delegado Nacional de Educação Física e o ministro secretário-geral do movimento (Falange Espanhola) representando o regime franquista. Houve a condecoração no estádio do Barcelona, mas, de acordo com Victor Figols, não passava de algo protocolar. 

— O Barcelona era um dos maiores clubes da Espanha naquela época, junto com Real Madrid e Athletic de Bilbao. O futebol estava sob o controle do Estado, então obviamente teria um algum representante do governo ali na inauguração de um estádio do tamanho que era o Camp Nou na época. É preciso lembrar que todos estavam vivendo sob um regime ditatorial — diz o historiador.

O vídeo divulgado pelo Real Madrid nesta semana usa uma foto do presidente do Barcelona na época, Francesc Miró-Sans, com a bandeira da Espanha e a insígnia da águia de San Juan, símbolo do regime franquista. Segundo Figols, não passava de um protocolo, assim como a imagem de jogadores do Barça fazendo saudação fascista, que também aparece no conteúdo divulgado pelo clube merengue nas redes sociais.

— Na década de 1940 até o começo dos anos 1950, era obrigatório fazer a saudação antes dos jogos e executar o hino nacional espanhol antes das partidas. Essa foto dos jogadores do Barcelona não é exclusividade do clube. A gente tem inúmeros registros de vários outros times fazendo essa saudação, inclusive registros das arquibancadas também, porque era comum — explicou.

Presidente do Barcelona bandeira da Espanha
Reprodução: Twitter/Real Madrid

O vídeo do Real Madrid também mostra que o Barcelona entregou uma insígnia para Franco. Figols conta que, na verdade, foram três. Uma em 1951, sem solenidade, em uma vitória do Barça sobre o Real Madrid. O ditador estava na tribuna, junto dos presidentes dos clubes.

As outras duas são de 1971 e 1974. Há uma discussão entre os historiadores de que Franco recuperou as economias do Barcelona, mas a de 1974 não passava de um cumprimento da lei que previa essa condecoração. Na ocasião, se tratava de uma celebração aos 75 anos do clube. Todas as honrarias dadas a Franco foram canceladas na gestão do presidente Joan Laporta nos anos 2000.

— Eu desconheço a informação de que o Franco teria sido presidente de honra do clube. Eu estudo o clube há pelo menos dez e nunca vi isso. Historiadores que estão há mais tempo estudando, também não. O próprio historiador do Barcelona diz que não há registro de que o clube condecorou Franco com um título de presidente de honra. Então essa informação parece ser a mais falsa desse vídeo. As outras não são. Elas são informações retiradas de contextos, com o objetivo de confundir. É fato que o Barcelona entregou as medalhas para o Franco, mas num contexto em que ele fora obrigado, e posteriormente, essas honrarias foram retiradas — continua o historiador.

Títulos durante a ditadura

Outro argumento utilizado pelo Real Madrid no vídeo é o fato de o Barcelona ter conquistado oito títulos do Campeonato Espanhol e nove da Copa do Rei durante o regime ditatorial, enquanto o clube madridista demorou 15 anos para conquistar um título da liga. Mas o time merengue ignora o fato de também ter conquistado seis Copas do Rei e cinco Champions League.

— De fato, (o Barça) ganhou nove (Copas do Rei). Assim como o Atlético também ganhou nove e o Real Madrid ganhou seis. Então não tem tanta discrepância em termos de títulos. E tem uma questão importante que, como mostra no vídeo, Franco entregava a taça da Copa do Generalissímo. Isto era uma tradição que vem desde a fundação da Copa do Rei e continuou com Franco. Existe um simbolismo no gesto, principalmente quando o Barça começa a assumir uma postura mais catalanista. O mesmo valia para o Athletic de Bilbao. O vídeo também omite o fato que o Barcelona ficou 14 anos sem ganhar a liga espanhola. Ele fica praticamente a década de 1960 inteira sem ganhar o título espanhol e vence só em 1974, em cima do Real Madrid, inclusive — diz Figols.

Sobre a acusação de Laporta de que o Real Madrid teria sido favorecido nas competições, o historiador conta que, durante sua pesquisa na graduação, encontrou em jornais denúncias dos dois lados acusando o outro de estar sendo favorecidos pela arbitragem, porém é algo difícil de comprovação.

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Foto: Reprodução/Marca

Clubes desmantelados

O último argumento utilizado pelo Real Madrid é que seu time foi desmantelado na Guerra Civil, tendo jogadores servindo ao exército. Porém, isso não foi uma exclusividade do time merengue. O mesmo aconteceu com o Barcelona e os demais grandes clubes da Espanha.

No período da guerra espanhola, o Campeonato Espanhol e a copa foram suspensos. As competições regionais se mantiveram apenas por mais dois anos. Então, os clubes começaram a fazer alguns jogos beneficentes para arrecadar dinheiro. O Barcelona fez jogos beneficentes para levantar recursos às vítimas da guerra. Mais tarde, realizou um tour pelas Américas, passando pelo México e EUA. Quando voltou, perdeu vários jogadores.

— O Real Madrid não chegou a fazer uma tour como Barça e Athletic de Bilbao, mas perdeu jogadores também, porque o exército era formado basicamente por homens e, naquele período, os jogadores tinham o perfil atlético desejado no exército. Os atletas se alistaram, fugiram ou se exilaram. Essa frase de que o Real Madrid foi desmantelado durante a Guerra Civil deixa entender que foi uma exclusividade do clube merengue, mas ele não foi o único. A gente tem outros relatos. O Barcelona teve o seu presidente fuzilado e o clube ficou sem presidente por um grande período, sendo gerido por funcionários e por uma comissão de ex-presidentes até o final da guerra — complementa o historiador.

Sobre a alegação de que o clube madridista teve sua sede bombardeada, Figols disse nunca ter ouvido falar do caso. “O Barcelona sim teve sua sede bombardeada na Guerra Civil Espanhola. Ele perdeu parte de sua documentação histórica e parte das suas taças”, salienta.

Figols trata o vídeo publicado pelo Real Madrid com muita preocupação, levando em consideração que se trata de um dos maiores clubes do futebol europeu, com alcance mundial por seus milhões de seguidores nas redes sociais.

— O Real Madrid publicou um vídeo institucional com informações falsas. Isso é perigoso. Se um torcedor do Real Madrid produz um vídeo como este, eu falo “ok, é um torcedor”. Mas o Real Madrid tem um centro de documentação, um centro histórico… O Real Madrid sabe da história. Não é falta de informação, é omissão, negacionismo, revisionismo. Tanto sabe da história, que o Real Madrid exclui do seu quadro de dirigentes um ex-presidente que combateu o movimento fascista de Franco, Ortega Gutiérrez. Do mesmo jeito, o Madrid esconde o fato de que um dos seus fundadores era catalão. Por que eles não aparecem na história do clube? — analisa.

Romulo Giacomin
Romulo Giacomin

Formado em Jornalismo na UFOP, passou por Mais Minas, Esporte News Mundo e Estado de Minas. Atualmente, escreve para a Premier League Brasil.