O Aston Villa de Jozef Venglos, primeiro técnico estrangeiro na elite inglesa

Conheça melhor essa história sobre os Villains

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Jozef Venglos

Eles são a maioria esmagadora. Dos 20 treinadores que iniciarão a atual edição da Premier League, nada menos que 14 são nascidos fora das ilhas britânicas. E a soma inclui os quatro que assumiram os cargos nesta pré-temporada. Mas nem sempre foi assim. A tendência de importar técnicos começou a ser observada entre os clubes ingleses no fim da década de 1990, em especial após os bons resultados obtidos e títulos conquistados pelo francês Arsène Wenger no Arsenal. O papel de Wenger abrindo portas na Premier League foi tão marcante que ofuscou a história do verdadeiro pioneiro entre os treinadores estrangeiros na elite inglesa: o rodado tchecoslovaco Jozef Venglos, que aportou no Aston Villa no fim de julho de 1990.

Foto: Birmingham Mail

A surpresa

Rebaixado em 1987, cinco anos após se sagrar campeão europeu, o Aston Villa recorreu a Graham Taylor. Tratava-se de um técnico de reputação consolidada com um ótimo trabalho de quase uma década no Watford, para tentar o retorno imediato à elite, o que foi concretizado.

Na temporada da volta, o clube escapou de novo descenso por apenas um ponto, mas os resultados melhorariam de modo significativo em 1989-90: a equipe brigou pelo título e ficou em segundo lugar, seu melhor resultado desde a inesperada conquista de 1981.

Taylor, no entanto, acabaria recrutado pela Football Association para substituir Bobby Robson na seleção inglesa após a Copa de 90. Enquanto isso, a vacância do posto no Villa gerou enorme especulação.

Surpreendentemente, o clube ignorou todos os nomes (ingleses) em cima dos quais a imprensa trabalhava, como Gerry Francis (do Bristol Rovers), David Pleat (do Leicester, ex-Luton e Tottenham) e Arthur Cox (do Derby, ex-Newcastle), e tomou uma decisão ousada.

Assim como a Inglaterra, a Tchecoslováquia havia feito uma ótima Copa do Mundo na Itália. A seleção chegou às quartas de final e caiu para a futura campeã Alemanha Ocidental por um gol de pênalti. Seu técnico, o tarimbado Jozef Venglos, de 54 anos, seria a aposta do Aston Villa.

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Venglos não era o primeiro estrangeiro a integrar uma comissão técnica no futebol britânico. O argentino Osvaldo Ardiles e o uruguaio Danny Bergara já haviam exercido cargos técnicos poucos anos antes, em clubes da segunda divisão.

Ambos, porém, tinham longa folha corrida de serviços prestados ao jogo britânico, ao passo em que Jozef Venglos era um nome completamente novo, desconhecido até mesmo da imprensa local.

Doutor em Educação Física (e por isso às vezes referido como “Dr Jozef Venglos”), o novo técnico dos Villains tinha currículo extenso, trabalhando em vários continentes e chegando inclusive a integrar o Grupo de Estudos Técnicos da Fifa como observador no Mundial de 1986.

Embora tivesse conquistado dois títulos de seu país com o Slovan Bratislava nos anos 70, Venglos tinha mais experiência em seleções. O treinador foi inclusive auxiliar de Vaclav Jezek no título tchecoslovaco na Eurocopa de 1976.

Foto: Soccer International

Uma nova filosofia no Aston Villa

Tinha, portanto, um perfil radicalmente diferente do padrão dos técnicos ingleses de então. Seus métodos incluíam dietas elaboradas, trabalho regenerativo e atividades físicas pós-jogo, quando culturalmente no futebol inglês os atletas costumavam apenas sair para beber.

Outra raridade no universo futebolístico britânico, o esquema com três zagueiros não foi, porém, uma inovação de Jozef Venglos no clube. Este já vinha sendo usado por Graham Taylor (assim como passou a ser adotado pela Inglaterra durante o Mundial da Itália).

De Taylor, o novo treinador também herdou um elenco bem servido de nomes experientes. O goleiro Nigel Spink e o armador Gordon Cowans integravam a equipe campeã europeia no início dos anos 80.

O trio de zagueiros era formado por Paul McGrath (nome histórico do Manchester United), Derek Mountfield (duas vezes campeão da liga pelo Everton na década anterior) e o dinamarquês Kent Nielsen, que havia integrado a “Dinamáquina” que assombrou o mundo na Copa de 1986.

Havia ainda o ascendente ponta Tony Daley (que em breve chegaria à seleção de Graham Taylor) e o goleador irlandês Tony Cascarino, exímio cabeceador e que, assim como McGrath, havia figurado na seleção que chegou às quartas de final do Mundial italiano.

Foto: Birmingham Mail

O principal nome, no entanto, era mesmo o meia-atacante David Platt, um dos grandes destaques não só da seleção inglesa como de toda a Copa do Mundo de 1990, e que já era avidamente sondado para se juntar ao galáctico e milionário futebol italiano.

Começo de Venglos entre altos e baixos

O time estreou empatando com o Southampton, mas em seguida perdeu para Liverpool e Manchester City, descendo para 18º.

A recuperação veio com duas vitórias sobre Coventry e Derby County, que levaram o time ao oitavo lugar em meados de setembro.

Foi a posição mais alta atingida pelo Villa na temporada. Aquele mês também marcaria a melhor exibição da equipe sob o comando de Jozef Venglos.

A temporada 1990-91 marcou a volta dos clubes ingleses às copas europeias, com a suspensão do banimento em virtude da tragédia de Heysel.

O Manchester United, vencedor da FA Cup, foi admitido na Recopa, enquanto o Villa, vice-campeão da liga, entrou na Copa da Uefa.

Depois de eliminar o Banik Ostrava, da mesma Tchecoslováquia de seu treinador, o clube de Birmingham teria pela frente a poderosa Inter de Milão.

Os italianos contavam com o goleiro Walter Zenga e o trio alemão formado por Andreas Brehme, Lothar Matthäus e Jürgen Klinsmann.

A partida de ida aconteceu em 24 de outubro no Villa Park. Em atuação magistral, o time de Jozef Venglos venceu por 2 a 0, com um gol de Kent Nielsen num chutaço de fora da área e outro de David Platt após lindo passe de Gordon Cowans.

Tony Daley teve um gol anulado por falta na defesa. Platt acertou o travessão num chute de voleio e perdeu outra chance na pequena área numa cabeçada. E Zenga precisou fazer outras intervenções cruciais para não levar uma desvantagem maior para Milão.

Dias antes do jogo de volta, o Aston Villa perdeu para o Chelsea por 1 a 0.

Contando todas as competições, foi sua primeira derrota após sete jogos e o primeiro gol sofrido em seis partidas. O que não se sabia então é que seria o início do declínio.

Em Milão, o time fez partida desastrosa. Muito recuado e por vezes até ingênuo na marcação, foi presa fácil para a Inter, que reverteu a derrota na ida com um 3 a 0 (embora o terceiro gol tenha sido contestado pela saída da bola além da linha de fundo).

Queda de rendimento no campeonato

O mês de novembro seria particularmente horrível: além da eliminação europeia, o time somou apenas um ponto em quatro partidas pela liga. E até o fim do ano, venceria apenas mais um jogo na competição, despencando para o 15º lugar na tabela.

Foto: Guerin Sportivo

Apesar da vitória sobre o Crystal Palace na rodada de 1º de janeiro, o primeiro mês de 1991 marcaria as eliminações nas duas copas inglesas, diante do Wimbledon na FA Cup e do Leeds, com goleada, na Copa da Liga.

Em fevereiro, com apenas dois jogos no calendário, a equipe ensaiou recuperação ao bater o lanterna Derby County em casa e empatar na visita ao Nottingham Forest. Mas março seria outro mês de resultados irregulares: duas derrotas seguidas por duas vitórias e um empate.

O péssimo desfecho

O triunfo na visita ao Sunderland (3 a 1) em 23 de março, porém, prenunciaria o pior momento da equipe na temporada. No início de abril, o Villa seria goleado pelo Arsenal em Highbury por implacáveis 5 a 0 (num jogo que terminou com Platt no gol).

Aquele seria o segundo de uma sequência de oito jogos sem uma vitória sequer, entre 30 de março e 4 de maio. E outras duas goleadas viriam mais adiante: os 5 a 1 sofridos em casa diante do Manchester City seriam seguidos pelos 5 a 2 aplicados pelo Leeds em Elland Road.

Estancado em 17º lugar na tabela, a equipe sofria leve ameaça de rebaixamento, que só não era maior porque o Derby já estava condenado e a outra vaga era disputada de modo mais acirrado por Luton e Sunderland. Por outro lado, o Villa se distanciava dos clubes acima dele.

Mesmo vencendo o Norwich e empatando com o Chelsea em seus dois últimos jogos – ambos no Villa Park – o time não conseguiu subir de posição na tabela, terminando no mesmo 17º posto. Não era a melhor maneira de se comemorar os 10 anos de sua última conquista da liga.

No entanto, o presidente do clube, Doug Ellis, mostrava-se confiante numa evolução da equipe em uma eventual segunda temporada sob o comando de Venglos. Não houve tempo. O próprio treinador pediu demissão em 28 de maio de 1991, 17 dias após seu último jogo no cargo.

A campanha por sua demissão na imprensa vinha sendo intensa. O Birmingham Mail chegara a publicar a manchete: “Pelo amor de Deus, Dr. Jo deve sair”. Parte do elenco, mais afeita ao jeito tradicional britânico de se conduzir um time, também não se mostrou convencida.

Foto: FourFourTwo

Choque de culturas e legado

Hoje, olhado com distanciamento, é difícil não interpretar o fracasso da passagem de Venglos pelo Villa Park como o produto de um choque de universos futebolísticos e uma experiência para a qual o jogo inglês só estaria mais preparado ao fim daquela década.

“As coisas que ele fez no Villa, outros clubes estariam fazendo sete ou oito anos depois”, declarou Dwight Yorke, então um atacante de 18 anos daquele time.

Em entrevista de 2010 ao Birmingham Mail, Venglos admitiu problemas de comunicação e de adaptação tanto dele à cultura britânica quanto dos jogadores a seus métodos. Mas revelou ter sido uma “grande honra” e uma “experiência excelente” para ele trabalhar na liga inglesa.

Após deixar a Inglaterra, o técnico seguiu para a Turquia, onde comandou o Fenerbahçe por dois anos. O Aston Villa, enquanto isso, apontou Ron Atkinson. Ele reformulou parte do elenco e levou o clube ao vice na Premier League inaugural em 1993 e ao título da Copa da Liga em 1994.

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