Os 25 anos do título do Arsenal na Recopa europeia

Gunners derrotaram o Parma na final do torneio

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Há exatos 25 anos, em 4 de maio de 1994, o Arsenal levantava um título europeu: o da extinta Recopa, competição que reunia os vencedores das copas nacionais. Na final em Copenhague, o time londrino derrotou um badalado Parma por 1 a 0.

Os Gunners haviam conquistado em 1970 a Copa das Feiras, torneio considerado oficial e tido como o antecessor da Copa da Uefa (e da atual Liga Europa), embora a entidade europeia – que não era a responsável por sua organização – não o contabilize entre suas competições.

Aquela campanha vitoriosa – na qual o Arsenal despachou o Ajax com Johan Cruyff e tudo, antes de bater o Anderlecht na final – foi importante para dar cancha e confiança ao time que no ano seguinte faria a primeira dobradinha inglesa (liga + Copa da Inglaterra) da história do clube.

Foto: Action Images

fDuas décadas depois, o Arsenal vivia nova fase vencedora. Comandado desde maio de 1986 pelo escocês George Graham (ex-meia daquela equipe do início dos anos 1970), havia vencido a primeira Copa da Liga de sua história em 1987 ao bater o Liverpool em Wembley.

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Dois anos depois, num desfecho épico, os Gunners bateram os Reds em Anfield e encerraram seu jejum de 18 anos na liga inglesa. Um novo título inglês viria dois anos depois, e agora de maneira categórica, deixando seus perseguidores Liverpool e Manchester United na poeira.

E mantendo a tradição que vinha se estabelecendo de conquistas em anos ímpares, em 1993 o time do norte de Londres fez uma inédita “dobradinha copeira”, conquistando a FA Cup e a Copa da Liga, batendo o Sheffield Wednesday em ambas as decisões em Wembley.

Retorno à Recopa Europeia

O título da FA Cup levou o Arsenal de volta à Recopa, torneio de recordações não muito felizes. Em sua única participação anterior, em 1980, o Arsenal chegou à final após eliminar a Juventus, mas foi batido nos pênaltis pelo Valencia em Heysel.

Era também uma chance de superar a frustração sofrida há dois anos na Copa dos Campeões, quando, em sua volta às taças europeias após a suspensão dos clubes ingleses pela Uefa, o time decepcionou caindo em casa para o Benfica ainda antes da fase de grupos.

Agora, o mesmo Benfica também participaria daquela edição da Recopa, juntamente com outros times fortes e/ou tradicionais do futebol europeu de então. Real Madrid, Ajax, Torino, Paris Saint Germain, Bayer Leverkusen e o atual campeão Parma eram candidatos ao caneco.

A caminhada do Arsenal rumo ao título começou na Dinamarca, enfrentando o OB Odense, que contava com o veterano goleiro Lars Högh, o ala Thomas Helveg, o meia Allan Nielsen (futuro Tottenham) e o atacante camaronês Alphonse Tchami.

Na ida, em Odense, vitória de virada por 2 a 1, com Wright e Merson marcando após um gol contra de Keown ter aberto a contagem. Na volta, em Highbury, Kevin Campbell marcou para os Gunners e o OB empatou no fim com Nielsen, mas não atrapalhou os planos.

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O adversário na segunda fase era o Standard Liège, que também contava com bons jogadores, como experiente goleiro Jacky Munaron, o zagueiro brasileiro André Cruz e o atacante Marc Wilmots. Porém, o time belga foi simplesmente implodido pelos Gunners nos dois jogos.

No primeiro, em Highbury, Wright anotou dois e Merson fechou a vitória por 3 a 0. Já em Liège, nem o mais fanático torcedor do Arsenal acreditou. Uma incrível goleada de 7 a 0, com dois gols de Campbell e um de Smith, Selley, Adams, Merson e McGoldrick.

Nas quartas de final, porém, a briga começou a engrossar. O sorteio colocou os favoritos frente a frente. Real Madrid e Paris Saint Germain, Parma e Ajax, Benfica e Bayer Leverkusen e Arsenal e Torino, com os Gunners tendo a vantagem de decidir em casa.

Foto: David Rogers/ALLSPORT

O Toro vivia então seu último momento de expressão no futebol italiano e internacional. Dois anos antes, havia chegado à final da Copa da Uefa, perdendo o título para o Ajax nos gols fora de casa. Também vinha de um título da Copa da Itália e ótimas campanhas na Serie A.

O time italiano também tinha um goleiro experiente, Giovanni Galli, além do atacante Andrea Silenzi, do ala croata Robert Jarni e de seu grande astro, o meia-atacante uruguaio Enzo Francescoli.

Em Turim, os Gunners contaram com Seaman para deter um chute poderoso do lateral Roberto Mussi e segurar o 0 a 0. Na volta, em Highbury, Tony Adams desviou de cabeça a falta levantada para a área por Paul Davis e colocou o Arsenal nas semifinais da Recopa.

Eliminando o PSG de Weah, Ginola, Raí e cia

O adversário seria o Paris Saint Germain, que havia eliminado o Real Madrid vencendo em pleno Santiago Bernabéu antes de empatar no Parque dos Príncipes. Se não contava com um aporte financeiro milionário como hoje, o clube francês já dispunha de muitos astros.

O goleiro Bernard Lama e o meia-armador David Ginola (que em breve chegaria à Premier League) formavam a boa base local. Havia ainda um trio de brasileiros de respeito: o zagueiro Ricardo Gomes e os meias Raí e Valdo. E ainda um certo atacante liberiano chamado George Weah.

Uma jogada idêntica à do gol de Adams contra o Torino, mas agora finalizada por Ian Wright, deu a vantagem ao Arsenal no Parque dos Príncipes. Mas o PSG empataria também na bola aérea: Valdo bateu escanteio fechado e Ginola desviou na primeira trave.

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Na volta, o Arsenal marcou logo aos sete minutos. Um cruzamento não muito alto de Lee Dixon que Kevin Campbell, no bico da pequena área, testou para as redes de Bernard Lama. Porém, na noite de festa em Highbury pela passagem à final também houve drama.

Aos 40 minutos, Ian Wright desceu em velocidade pela esquerda, mas foi superado pelo zagueiro Alain Roche, que lhe tomou a frente. Ao tentar recuperar a bola, Wright foi com muita sede ao pote e deu um carrinho lateral, cometendo falta e sendo punido com cartão amarelo.

O atacante chegara pendurado a aquela partida: havia recebido um amarelo contra o Standard Liège em Highbury, ainda na segunda fase. Ao perceber o que tinha feito, que estaria fora da final caso o Arsenal avançasse, levou as mãos à cabeça e desatou a chorar.

Foto: Anton Want/Getty Images

Wright seria uma baixa importante, mas não a única do Arsenal. Na decisão contra o Parma, o técnico George Graham também não poderia contar, pela primeira vez naquela campanha, com o meia dinamarquês John “Faxe” Jensen, peça fundamental na contenção.

A tão esperada final europeia

O time da final teria, portanto, David Seaman no gol e o sólido quarteto defensivo formado pelos laterais Lee Dixon e Nigel Winterburn e os zagueiros Tony Adams e Steve Bould, que vinha jogando desde as quartas no lugar no lesionado Martin Keown.

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No meio, além do veterano e confiável Paul Davis, havia o versátil Ian Selley e o norte-irlandês Steve Morrow, substituto de Jensen. Sem Wright, o trio ofensivo contaria com Kevin Campbell pela direita, Alan Smith no centro e Paul Merson pela esquerda.

Enquanto isso, na liga inglesa, o time fazia boa campanha. Chegou a ficar 19 jogos invicto entre dezembro e abril e terminou com a defesa menos vazada. Foram apenas 28 gols sofridos em 42 jogos. O quarto lugar obtido, porém, não seria o suficiente para a vaga na Copa da Uefa.

Ainda buscando seu espaço nos torneios continentais com o fim da suspensão pós-Heysel, os clubes ingleses dispunham de apenas duas vagas pela liga na Copa da Uefa, definidas pelo ranking da entidade. Daí a importância, para o Arsenal, de vencer a Recopa.

Foto The Sportsman

Por ironia, aquela campanha terminaria no mesmo país onde começara, a Dinamarca. No recém-inaugurado Parken Stadium, de Copenhague, os Gunners teriam pela frente um adversário forte o suficiente para não se impressionar com a campanha consistente dos londrinos.

Naquela primeira metade dos anos 1990, graças ao fabuloso aporte financeiro da Parmalat (multinacional do ramo dos laticínios), o Parma havia ascendido das divisões inferiores italianas para se colocar entre as potências do Calcio, que vivia então sua era de ouro.

O clube contava com cinco jogadores que estariam com a Azzurra no Mundial dos Estados Unidos dali a um mês, além do zagueiro argentino Roberto Sensini e de uma dupla de ataque cotada a brilhar na Copa: o sueco Tomas Brolin e o colombiano Faustino Asprilla.

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Tentando se tornar o primeiro clube a vencer a Recopa por dois anos seguidos, o Parma começou atacando e levando perigo. Aos 13 minutos, Brolin acertou a trave com um chute cruzado ao concluir um contra-ataque rápido puxado por Asprilla.

Sete minutos depois, no entanto, era o Arsenal quem abria o placar. O líbero Lorenzo Minotti tentou cortar um lançamento com uma bicicleta, mas a bola sobrou no meio para Alan Smith. Ele a matou no peito e fuzilou Luca Bucci de pé esquerdo, de fora da área.

Em vantagem, o Arsenal passou a recuar e chamar o Parma para o seu campo, buscando o jogo nos contra-ataques. Entrou em cena então a conhecida resiliência defensiva dos Gunners, com marcação cerrada sobre Brolin, Asprilla e o meia-atacante Gianfranco Zola.

Ao apito final, a torcida do Arsenal explodiu em celebrações, entoando ainda mais forte o cântico “One-nil to the Arsenal” (Um a zero para o Arsenal), o qual repetiu por toda a partida. Ian Wright e John Jensen, os ausentes da final, também invadiram o gramado para festejar.

O capitão Tony Adams ergueu a taça, a qual o clube se tornava o quarto londrino a vencer. Antes disso, quem levou o torneio foram Tottenham (1963), West Ham (1965) e Chelsea (1971). No ano seguinte, o Arsenal voltaria à decisão da Recopa, mas seria derrotado pelo Zaragoza na prorrogação.

Foto: Gunnerstown