O dia em que o Arsenal foi campeão inglês nos acréscimos da última rodada

Em 1989, Gunners venceram Liverpool por 2 a 0 com gol no fim em Anfield

O dia em que o Arsenal foi campeão inglês nos acréscimos da última rodada
(Foto destacada: Bob Thomas/Getty Images)

Na temporada 1988/1989, Liverpool e Arsenal foram os principais times do país. Os dois travavam a disputa mais apertada da história da Primeira Divisão até então, e chegaram para uma última rodada que prometia ser histórica. E o que aconteceu naquele 26 de maio de 1989 jamais será esquecido, principalmente pela torcida do Arsenal que viu o time ser campeão inglês.

Eles se enfrentariam em Anfield, casa do Liverpool, para decidir o torneio. O Liverpool podia perder por até um gol de diferença, enquanto o Arsenal tinha que vencer por no mínimo dois para quebrar um jejum de 18 anos sem a conquista.

Por isso, a PL Brasil relembra o dia em que Reds e Gunners protagonizaram uma das maiores – talvez a maior – decisão da história da liga inglesa.

Contexto da decisão

 (Foto: Allsport UK/Getty Images)

A temporada 1988/89 da primeira divisão na Inglaterra foi extremamente disputada. Em um ano que marcou a mudança na forma como eram feitos os contratos de TV (na época, a ITV pagou 44 milhões de libras por direitos de quatro temporadas), os postulantes à taça tiveram trajetórias distintas.

O Liverpool, que chegou à rodada final liderando, não começou de maneira satisfatória. O time de Kenny Dalglish, que na época assumia as funções de jogador e treinador (mas aparecia com pouca frequência em campo), empolgou mesmo no segundo turno.

Sempre bom destacar que não estamos falando de qualquer equipe. Entre 1972 e 1988, foram 16 campeonatos e 10 títulos do Liverpool. Nesse meio tempo eles também levaram quatro Copas dos Campeões da Europa e duas Copas da Inglaterra. O time vermelho era uma das grandes potências mundiais.

O elenco, obviamente, era de respeito. Bruce Grobbelaar, Ray Houghton, Steve Nicol, Noel Whelan, Peter Beardsley, John Barnes, John Aldridge, Ian Rush… estes eram alguns dos jogadores que formavam a máquina que era o Liverpool.

Por isso, não haviam dúvidas: uma bela arrancada seria suficiente para esse time chegar aos ponteiros. Dito e feito: depois de um empate contra o Arsenal em 1 a 1 no Highbury na virada para 1989, o time emendou sete vitórias seguidas e chegou ao segundo lugar.

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O líder era justamente o Arsenal. A remodelada equipe de George Graham conseguiu se mostrar competitiva e ficou na frente quase todo o tempo (curiosamente, dividiu a liderança no Natal com o Norwich).

O escocês havia chegado em 1986 ao comando do lado vermelho do Norte de Londres e mudou a cara de uma instituição que estava se acostumando com derrotas.

Nomes como Alan Smith, Kevin Richardson, Lee Dixon, Steve Bould e Nigel Winterburn foram contratados. Eles se juntaram a bons atletas promovidos da base, como Tony Adams, David Rocastle, Michael Thomas e Paul Merson.

(Foto: Bob Thomas/Getty Images)

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Essa transição não demandava grandes expectativas, mas o time começou muito bem a liga e abriu enorme vantagem. Só que na parte final, tropeços começaram a aparecer e a diferença para o Liverpool, que chegou a ser de 11 pontos, foi pulverizada.

Os Gunners desperdiçaram 19 pontos entre janeiro e maio. A chance de matar a liga veio antes da rodada final. Mas na antepenúltima rodada, derrota em casa para o Derby County por 2 a 1. E na penúltima, de novo em Highbury, empate em 1 a 1 com o Wimbledon.

A tabela virou de ponta cabeça. Os Reds, que estavam dois pontos atrás, venceram o Queens Park Rangers por 2 a 0 e o West Ham por 5 a 1. Com isso, abriram três pontos e chegaram em vantagem para o confronto decisivo.

O Liverpool tinha quatro a mais de saldo, mas menos gols marcados. Ou seja, para levar a taça, o Arsenal tinha que vencer por dois gols de diferença em Anfield. A tarefa parecia impossível, tanto que os prognósticos apontavam os rivais como grandes favoritos.

Tragédia de Hillsborough adiou o jogo

Inicialmente a partida estava marcada para o dia 23 de abril de 1989. Porém, a tragédia que mudaria para sempre o comportamento das torcidas na Inglaterra forçou o adiamento do fim do campeonato.

Oito dias antes, 96 torcedores do Liverpool morreram no Desastre de Hillsborough. Na ocasião, durante a semifinal da Copa da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest, um erro da polícia gerou uma superlotação que dizimou 96 vidas.

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Enquanto culpados eram procurados e soluções eram buscadas para melhorar a segurança dos estádios, a primeira divisão ainda precisava ser encerrada. E aquilo gerou uma situação inusitada e hoje inimaginável: a Copa da Inglaterra acabou antes do campeonato.

Como não foram encontradas datas disponíveis até a decisão da copa, a rodada final foi marcada para o dia 26 de maio. Seis dias antes, o Liverpool batia o Everton no Merseyside Derby em Wembley e conquistava sua quarta copa nacional.

Ou seja, o jogo contra o Arsenal valia o “double” (ou “dobradinha”, em português, com as conquistas de Liga e Copa no mesmo ano). Porém, jogos tão pesados em sequência acabaram pesando negativamente no físico e no psicológico dos atletas.

O fato foi assumido publicamente por Kenny Dalglish tempos depois. “Três jogos grandes e tensos em um espaço de seis dias forçaram demais dos nossos jogadores”, lembrou o treinador.

(Foto: Reprodução/Liverpool FC)

O jogo

Depois da derrota para o Wimbledon, George Graham surpreendeu. Em vez de soltar os cachorros, ele preferiu que o ambiente do Arsenal fosse o melhor possível. Por isso, deu dois dias de folga aos atletas.

“Foi um dos jogos onde sabíamos onde estávamos, o que tínhamos que fazer, e tínhamos que tentar. Mas não esperava que ganhássemos”, declarou depois o artilheiro Alan Smith, destacando a leveza do ambiente.

Mensagens motivacionais e vídeos de títulos antigos foram usados durante a semana. Tudo isso para fazer os jogadores acreditarem em uma reviravolta improvável.

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O Liverpool não perdia em casa por dois gols haviam três anos, e o Arsenal não ganhava em Anfield há 14. Além disso, com a dupla de ataque titular (Aldridge e Rush), o Liverpool não havia sido derrotado.

A partida foi atrasada em alguns minutos por conta do forte congestionamento em volta do estádio. E a escalação teve novidade: enquanto o Liverpool foi com um 4-4-2 convencional, o Arsenal foi com um incomum 5-4-1 para segurar a troca de passes do rival. David O’Leary entrou como líbero, enquanto Smith jogou sozinho na frente.

O esquema surpreendeu a todos, já que os londrinos precisavam de dois gols. “Aquilo nos tirou do nosso passo. Talvez eles pensaram ‘esses caras jogaram muitos jogos, devem estar emocionalmente exaustos, e aí podemos fazer alguns gols mais tarde’”, declarou tempos depois Ray Houghton, meia do Liverpool na época.

Enfim, começou a partida. No primeiro tempo, cada time tentou chegar a sua maneira, mas o jogo foi bem travado. O principal momento, na verdade, foi a lesão de Ian Rush. Aos 32, ele sentiu dores na virilha e foi substituído por Peter Beardsley. Intervalo, 0 a 0, título ficando em Anfield.

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Foto: Reprodução/North Wales Live

Veio o segundo tempo e, aos sete minutos, tudo mudou. Em cobrança de falta na intermediária, Winterburn cruzou e Smith, livre, desviou para marcar. O gol gerou muitas reclamações dos jogadores do Liverpool.

Isso porque, segundo eles, Smith não desviou na bola, o que tornaria o gol ilegal por vir de uma falta indireta. Porém, após conversa com o assistente, o juiz David Hutchinson confirmou o gol (o replay mostrou que o camisa 9 realmente tocou de cabeça).

O 23º gol de Alan Smith no campeonato (artilheiro da liga) colocou o 1 a 0 no placar e fogo no jogo. Precisando de apenas um gol, o Arsenal buscava o ataque. O Liverpool, ainda com o título em mãos, tinha a estratégia definida e seguia com tudo controlado.

Aos 29 minutos, o Arsenal teve a chance de marcar o segundo. Thomas recebeu belo passe de Richardson na área e ficou cara a cara com Grobbelaar, mas bateu mal e deu a bola de presente para o goleiro. O destino ainda sorriria para ele.

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O tempo passava e o Liverpool começava a explorar mais os contra-ataques. Em dois deles, especialmente, o título quase foi sacramentado. Primeiro com Houghton, depois com Aldridge – este chegou a marcar, mas estava impedido.

George Graham mexeu e colocou o time novamente no 4-4-2, para ter mais presença de área e buscar o gol. Mas com o fim do jogo se aproximando e os mandantes gastando tempo, parecia que a taça ficaria em Anfield e a fila do Arsenal aumentaria. Parecia.

Aos 45 do segundo tempo, Liverpool no ataque com John Barnes. O camisa 10 parte para a área em vez de gastar mais tempo, e é desarmado por Richardson. Este recua para John Lukic – na época, era permitido que o goleiro segurasse a bola após o recuo.

O arqueiro lança Dixon, que faz longo passe para Smith no ataque. O artilheiro ajeita na intermediária, gira e vê Thomas passando com espaço pelo meio.

O camisa 4 do time londrino dispara em velocidade, ganha da marcação na corrida e espera a saída de Grobbelaar para finalizar. A primeira chance ele havia perdido. A segunda tinha que ser a do título.

“Quando eu comecei a partir, não prestei atenção em nada em minha volta. Era como se o tempo tivesse ficado mais lento. Eu só pensei que estava indo para cima e esperei o Grobbelaar cair”, disse Thomas anos depois.

Foto: Reprodução/FourFourTwo

E deu certo. No toque com o biquinho do pé direito, ele tirou do arqueiro rival e marcou. Aos 46 do segundo tempo, Liverpool 0 a 2 Arsenal. Enquanto os Reds não acreditavam, os Gunners explodiram. Festa londrina total em Anfield.

O Liverpool ainda buscou o ataque pela última vez, mas não deu. Pouco menos de 40 segundos depois do recomeço do jogo, o juiz encerrou a temporada de 1989. Nos acréscimos do último jogo, o Arsenal quebrava a fila de 18 anos.

Partida que ficou marcada para sempre no futebol inglês

A torcida gooner explodiu de alegria em Anfield. O Arsenal comemorou como nunca a quebra do jejum. E a torcida do Liverpool, depois de uma montanha-russa de emoções naquela temporada, mostrou respeito e aplaudiu os campeões, sem demonstrações raivosas.

Ray Houghton lembra que, apesar da força de seu time, o título ficou em boas mãos. “Se fosse outro time em vez do Arsenal, estaríamos ok. Eles vieram, fizeram seu trabalho e jogaram de forma limpa, mereceram”, destacou o meia.

Aquela partida significou uma mudança de forças no futebol inglês. O Liverpool, com a derrota, deixou de ser a máquina super campeã dos anos 1980. Tanto que, na temporada seguinte, os Reds ainda foram campeões da liga, mas desde então nunca mais conseguiram o feito.

Kenny Dalglish saiu em 1991, e até hoje o time não conquistou mais o campeonato. Ainda por cima, perdeu o posto de maior campeão para o Manchester United. Na época o Liverpool tinha 18 taças, e o United sete; hoje a liderança é dos Red Devils, 20 a 18.

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(Foto: PA Images)

Já o Arsenal venceu a liga duas temporadas depois, em 1990/91, e teve que esperar até 1998 para ganhá-la novamente. Nesse meio tempo, levou a Copa da Inglaterra, a Copa da Liga e a Copa dos Campeões das Copas Europeias.

Outra curiosidade é sobre Michael Thomas. O herói do Arsenal em 1989 jogou no Liverpool entre 1992 e 1998. Apesar de ser atrapalhado por muitas lesões, também marcou seu nome com gol de título.

Em 1992, ele fez o primeiro na final da Copa da Inglaterra de 1992, contra o Sunderland. Os Reds venceram por 2 a 0 em Wembley e levantaram a taça.

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O jogo de 1989 talvez tenha sido o último grande momento da “antiga era” do futebol inglês. Como dito no começo do texto, a forma de negociação dos contratos com as TV mudou para sempre. A virada da década representava um recomeço nesse sentido.

Este foi um dos fatores para que os clubes se desvencilhassem da Football League, criando em 1992 a Premier League como conhecemos hoje. As cotas televisivas explodiram, os clubes ganharam projeção mundial e hoje a PL é uma das ligas mais vistas do planeta.

O narrador Brian Moore, que fez o jogo pela ITV em 1989, ganhou um bordão eterno. Na hora da finalização de Thomas, ele soltou a frase “It’s up for grabs now!, algo como “É correr para o abraço!”. Esta virou quase um dos slogans do Arsenal.

Faixas, programas e até mesmo o DVD oficial da conquista carregam a frase em questao. “It’s up for grabs now” virou sinônimo de sucesso no futebol inglês. Moore, que faleceu em 2001, destacou anos depois uma situação inusitada.

“Eu estava em um táxi uma vez quando o motorista, um torcedor do Arsenal, de repente começou a repetir com orgulho todo o último minuto da minha narração naquele dia. Ele sabia palavra por palavra. As imagens estavam quentes na sua cabeça”, lembrou.

Foto: Bob Thomas/Getty Images

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O jogo é tão marcante que chegou a inspirar um livro. Febre de Bola, de Nick Hornby, conta como o mesmo (torcedor doente do Arsenal) intercalou situações marcantes de sua vida e do mundo com o futebol. O título de 1989, obviamente, tem capítulo especial.

Na obra que foi lançada em 1992 e virou filme em 1997, Hornby, que fazia o possível e o impossível para ir aos jogos, conta que não conseguiu viajar até Liverpool. Porém, ele destaca a alegria que sentiu naquele dia, comparando ate com uma sensação sexual.

“Embora nem se discuta que sexo é uma atividade mais gostosa do que ver futebol (nada de empates em 0x0, linha de impedimento, decepção na hora H, e a gente ali está sempre quentinho), em condições normais, os sentimentos envolvidos não são tão intensos quanto aqueles trazidos à tona por um gol no último minuto que vale o campeonato, algo que só acontece uma vez na vida” – Nick Hornby, Febre de Bola (1992).

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Até hoje, aquela decisão é considerada por muitos a maior da história do país. A comparação geral é com a de 2012. Na ocasião, o Manchester City fez dois gols em 5 minutos para virar o jogo na última rodada contra o Queens Park Rangers, levando o título depois de 44 anos – e sobre o grande rival, Manchester United.

Os anos se passaram, Liverpool e Arsenal buscam mais protagonismo nacional e os tempos do futebol são totalmente diferentes. Mas não dá para negar que o dia 26 de maio de 1989 jamais será esquecido por quem gosta do futebol inglês.

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