Armênia x Turquia: guerra e conflitos muito além do futebol

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Armênia e Turquia se enfrentam na tarde deste sábado (25), às 14h (horário de Brasília), no Vazgen Sargsyan Republican Stadium, em jogo válido pela primeira rodada das Eliminatórias da Eurocopa de 2024. Mas a história desse duelo vai muito além das quatro linhas. Os dois países têm um histórico de conflito. Em 1915, os turcos promoveram um massacre contra a população armênia e, em 1920, as nações entraram em guerra.

Ocupação da Armênia pela Turquia

Entre 1915 e 1918, o governo turco protagonizou um dos maiores massacres do século 20: o genocídio armênio, que matou cerca de 1,5 milhão de pessoas. Milhares de armênios foram obrigados a deixar sua terra natal por conta da ocupação turca que dominou o ocidente da Armênia, dizimando relíquias culturais de mais de 3 mil anos de história.

O começo

Por três mil anos, uma comunidade armênia ocupou uma vasta região do Oriente Médio, chamada de Ásia Menor, que é cercada pelos mares Negro, Mediterrâneo e Cáspio. Esse território está na encruzilhada de três continentes: Europa, Ásia e África. Durante os séculos, o local foi governado por diferentes povos, como persas, gregos, romanos, bizantinos, árabes e mongóis.

Mesmo com várias ocupações, a Armênia manteve sua identidade cultural e seu patriotismo. O país surgiu em 600 a.C., em um cenário de paz e conhecimento, com a emersão de literatura, arte, comércio e arquitetura. Em 301 d.C., foi a primeira nação no mundo a adotar o cristianismo como religião oficial.

A Armênia fez parte do antigo Império Turco-otomano até o ano de 1918. Isso porque os exércitos turcos começaram a perder força ainda nos anos 1800, tendo algumas derrotas para os europeus. Assim, países como Grécia, Sérvia e Romênia conquistaram independência.

Na década de 1890, os armênios exigiram um governo constitucional, com direito a voto, e o fim de práticas discriminatórias. O sultão turco reprimiu os movimentos sociais, o que fez com que algumas cidades se organizassem para se defenderem. Em Sassun, o partido político “Henchakian” disseminava ideias de autonomia e resistência.

Naquela época, os armênios pagavam impostos para os turcos apenas pelo fato de serem cristãos. Diante das reinvindicações, os armênios foram perseguidos. Aproximadamente 100 mil habitantes foram massacrados entre 1894 e 1896.

Governo turco

O Império Turco-otomano era governado por sultões até 1908. Em julho daquele ano, nacionalistas turcos forçaram o sultão Abdulhamid II a abdicar do poder para que houvesse a criação de um governo constitucional, com a garantia de direitos básicos. Esse grupo era denominado como “Jovens Turcos” e era formado por subalternos do exército que tentavam conter o declínio de seu país. No

O sultão Mahmed V. foi quem conduziu o novo governo, porém ele tinha poucos poderes políticos. Os armênios acreditavam que aquela seria uma mudança para um futuro melhor, porém, três integrantes dos “Jovens Turcos” — Mehmed Talaat, Ismail Enver e Ahmed Djemal — deram um golpe em 1913, assumindo o controle do lugar. Seus objetivos eram unir todos os povos de seu domínio em uma região e expandir as fronteiras da Turquia para o leste.

A Armênia ficava no caminho dos planos de expansão, principalmente a região histórica ocidental. Os conflitos entre as nações se davam pela relação entre os dois povos que ia se enfraquecendo gradativamente por diferenças culturais e religiosas. Os extremistas islâmicos turcos praticavam violência contra os católicos. Além disso, os armênios queriam reformas políticas e econômicas, apoiando a democracia e o liberalismo. Já no outro lado, os líderes da Turquia não valorizavam educação e não concordavam com as novas ideias que cresciam no Ocidente.

Ocupação turca e o genocídio armênio

Com o surgimento da Primeira Guerra Mundial em 1914, o governo “Jovens Turcos” adotou uma política para restabelecer o poder do Império Turco, cujo o objetivo era colonizar todos os povos. Assim, naquele ano, iniciou o extermínio da população armênia que se agravou em 24 de abril de 1915, quando centenas de intelectuais foram presos e mortos. Na segunda fase do massacre, jovens foram recrutados pelo exército turco e depois mortos pelos próprios companheiros.

Na fase final do genocídio, mulheres, crianças e idosos foram conduzidos para desertos da Síria e Mesopotâmia e aqueles que não foram mortos vieram a falecer de fome, sede e doenças. A maioria dos armênios que sobreviveram ao genocídio foram forçados a adotar o islamismo e as crianças sobreviventes foram separadas dos pais e criadas como turcas.

Reconhecimento do genocídio armênio

O temo “genocídio” foi criado por Raphael Lemkin em 1944. Ele era um advogado judeu polonês e sua família foi vítima do holocausto. Além do assassinato em massa dos judeus, sua intenção foi descrever os absurdos feitos com o povo armênio a partir de 1915.

Em 9 de dezembro de 1948, a ONU reconheceu o massacre armênio como um genocídio. Além da Armênia, outros países também fizeram tal reconhecimento, como Grécia e Canadá, em 1996. Atualmente, mais de 20 países reconhecem o genocídio armênio, além de 42 dos 50 estados dos EUA.

A dúvida de algumas nações no reconhecimento do genocídio armênio se dá pelo artigo número 2 da Convenção de Viena sobre genocídio, de dezembro de 1948, que descreve os atos com o objetivo de “destruir, parcial ou totalmente, um grupo étnico, racial, religioso ou nacional”. As autoridades turcas, por sua vez, alegam que nunca houve uma tentativa de destruir a nação armênia e que muitos mulçumanos inocentes também morreram durante a guerra.

Em 2015, o Senado Brasileiro reconheceu o genocídio armênio, pressionando o Governo Federal a fazer o mesmo. Entretanto, apenas algumas cidades e estados brasileiros fazem tal reconhecimento, como a capital paulista, Campinas e o estado do Paraná.

O fim do massacre armênio

Os armênios conseguiram resistir ao extermínio, conseguindo poderio bélico e lutando contra os turcos. A invasão finalmente terminou na batalha de Sadarabad, em 1918, vencida pelo povo armênio que declarou o estabelecimento da República Independente da Armênia.

A Primeira Guerra Mundial terminou no mesmo ano com a derrota alemã, junto dos poderes centrais, incluindo a Turquia. Antes de terminar o conflito, os “Jovens Turcos”, Talaat, Enver e Djemal, fugiram para terras alemãs.

Além das pessoas, os armênios perderam grande parte de seu patrimônio cultural, incluindo obras de arte, construções antigas, bibliotecas e até cidades inteiras. Depois disso, a Armênia entrou em fase de reconstrução e criou o Museu e Instituto do Genocídio Armênio, fundado em 1995.

Guerra Turco-Armênia

Em 10 de agosto de 1920, foi assinado o Tratado de Sèvres, que definiu o fim do Império Turco-otomano. Porém, forças do Movimento Nacional Turco não reconheceram o acordo e se prepararam para uma guerra para retomar as províncias de Kars, Ardahan e Batumi que foram cedidas à República da Armênia.

Em 30 de setembro, as tropas turcas tomaram as cidades Sarıkamış, Kağızman, Iğdir e Merdeniq. No início de outubro, a Armênia pediu ajuda ao Reino Unido, França e Itália, mas não houve resposta. A maior parte das forças britânicas estavam sufocadas no Mandato Britânico da Mesopotâmia, enquanto França e Itália tinham dificuldades parecidas no Mandato Francês da Síria e Antalya. A Geórgia ficou neutra perante o conflito e apenas a Grécia prestou um certo apoio, porém insuficiente diante do ataque turco.

No dia 11 de outubro, o enviado soviético Boris Legran chegou a Erevão com um texto para negociar um acordo soviético-armênio. Em 24 de outubro, o tratado foi assinado e, com ele, a Armênia tinha que garantir apoio aos soviéticos.

A questão central estava relacionada à Kars, que pertencia ao governo armênio. Os nacionalistas turcos dirigiram suas tropas para a província, o que fez os armênios abandonarem o local. Pessoas que moravam lá foram vítimas de saques, violações e assassinatos.

As forças turcas continuaram e, após uma semana, tomaram a cidade de Alexandropol (atual Gümrü, na Armênia). Em 12 de novembro, eles tomaram o povoado de Agin. Um dia depois a Geórgia rompeu sua neutralidade pelo fato das tropas armênias invadirem Lorri, que era uma zona neutra prevista no acordo estabelecido entre as nações. No final de novembro a Armênia foi definitivamente derrotada.

Perto de colapsar por completo, a Armênia solicitou um acordo de cessar-fogo. No dia 2 de dezembro, o governo armênio teve que desarmar a maioria de suas forças militares e ceder metade do território que tinha antes da guerra. Assim, os armênios perdiam todas as concessões acordadas pelas potências europeias no Tratado de Sèvres.

Mas o conflito não parou por aí. O governo soviético invadiu a Armênia para estabelecer um novo governo pró-bolchevique. Em 29 de novembro, o país foi invadido e o exército soviético não encontrou muita resistência. O conflito durou apenas uma semana, já que os armênios vinham de seis anos de guerras e estavam em situação vulnerável para articular alguma oposição.

Em 4 de dezembro de 1920, o governo armênio entregou o poder e no dia seguinte o Comitê Revolucionário Armênio, composto por armênios procedentes do Azerbaijão, tomou o poder e deu o fim na República Democrática da Armênia, dando lugar à República Socialista Soviética da Armênia.

Os confrontos armados tiveram fim com a assinatura de dois tratados de amizade entre a Grande Assembleia Nacional Turca, que posteriormente se tornaria República da Turquia em 1923, e a União Soviética. O primeiro deles foi o “Tratado de Amizade e Irmandade“, também conhecido como Tratado de Moscou, assinado em 16 de março de 1921. Com ele, a Turquia cedia Adjara à URSS em troca do território de Kars, que incluía as províncias Kars, Iğdır, e Ardahan.

O segundo acordo foi o Tratado de Kars, de 23 de outubro de 1921, em que participaram os representantes nacionalistas turcos e os da República Socialista Soviética do Azerbaijão, a República Socialista Soviética da Armênia e a República Socialista Soviética da Geórgia.

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Novos conflitos

O conflito mais recente se trata da ocupação de separatistas armênios do enclave de Nagorno-Karabkh, no Azerbaijão, aliado da Turquia, na década de 19990. O povo azeri e armênio ocuparam a região de Karabakh de 1918 a 1922. Os azeris ficaram no território plano e os armênios na região montanhosa, conhecida como o “Alto Carabaque“.

Porém, em 1922, com o surgimento da União Soviética, Armênia e Azerbaijão se tornaram repúblicas soviéticas e as disputas na região Karabakh passaram a ser controladas. A administração soviética determinou a demarcação dos territórios que são ocupados pelos dois países até hoje.

Com o fim da União Soviétia em 1991, as Repúblicas Soviéticas de Armênia e Azerbaijão se tornaram independentes. A população armênia, então, viu uma oportunidade de conquistar sua independência, algo que foi apoiado pela capital da Armênia, Yerevan, e rejeitada pelo governo azerbaijano. Assim, foi convocado um plebiscito, com abstenção dos azeris, e com a maioria dos votos a favor da criação da República de Nagorno-Karabakh, que, mais tarde, passou a se chamar República de Artsakh.

Porém, os conflitos por Nagorno-Karabakh reacenderam. Estima-se que entre 1991 e 1994, mais de 30 mil armênios e azeris tenham morrido. A guerra só parou em maio de 1994, quando um dos governos assinou um cessar-fogo. Entretanto, conflitos menores continuam acontecendo, o que fez com que fossem criadas propostas de resolução do conflito pelo Grupo de Minsk, criado pela Organização pela Segurança e Cooperação Europeia (OSCE), em que se propõe:

  • O retorno dos territórios em volta de Nagorno-Karabakh ao controle do Azerbaijão;
  • Garantias de segurança e autogoverno para Nagorno-Karabakh
  • Um corredor ligando a Armênia a Nagorno-Karabakh;
  • O direito das pessoas deslocadas e refugiados voltarem para seus lares;
  • Garantias de segurança internacional, com a manutenção da paz.

Porém, ambos os países não aceitaram os termos pensando que estavam em desvantagem. O governo de Baku, capital do Azerbaijão, defende leis que determinam sua soberania na região de Nagorno-Karabakh, enquanto Yerevan e Atsakh creem que o território pertence ao povo armênio. Assim, pequenos conflitos acontecem até hoje na região.

Contexto

Cáucaso é uma região europeia rica em petróleo, o que enriquece alguns países, como o Azerbaijão, e traz interesse internacional. Por isso, Rússia e Turquia, interessados no território, apoiam lados diferentes.

Azerbaijão e Turquia são aliados, também, por terem idiomas parecidos e pelo fato de ambos serem muçulmanos, embora os azeris sejam tradicionalmente Xiita e os turcos majoritariamente Sunita. Como aliado azeri, o governo turco fecha suas fronteiras com a Armênia para demonstrar apoio ao Azerbaijão.

Pelo outro lado, um dos fatores que ajudam a entender a aliança entre Armênia e Rússia é a religião, já que os armênios são historicamente cristãos em meio a uma maioria islâmica na região. Os russos, então, usam dessas questões para crescer seu poder na região vizinha.

Conflitos recentes

Apesar do cessar-fogo assinado por Armênia e Azerbaijão, em 2020, os países voltaram a ter confrontos. Aproximadamente 5 mil pessoas foram mortas naquele ano, porém é difícil precisar o número já que o país azeri não reconhece o número de mortos declarados pelo governo armênio.

O território em disputa por Armênia e Azerbaijão pode ser considerado pequeno perto de outros confrontos, mas diariamente o cenário ultrapassa a região de Karabakh, com pontos estratégicos conquistados por ambos os lados. A participação de Rússia, Turquia e até mesmo Israel preocupa em relação ao aumento de conflitos, podendo aumentar gradativamente a violência envolvida na guerra.

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Fronteira aberta após 35 anos

Diante de tantos conflitos, no dia 11 de fevereiro, foi aberta a fronteira entre Turquia e Armênia, depois de 35 anos, para o envio de ajuda humanitária às vítimas do terremoto que atingiu o território turco.

Cinco caminhões cruzaram o posto de Alican, na província de Igdir. A última vez que essa ligação havia sido estabelecida foi em 1988, quando a Armênia precisou de ajuda após ser atingida por um terremoto em sua capital, Erevan, matando cerca de 30 mil pessoas.

Em janeiro, diplomatas turcos e armênios se encontraram para ensaiar uma reaproximação. Os voos comerciais entre os dois países voltaram a partir do último mês.

Dentro de campo

No futebol, Turquia e Armênia se enfrentaram apenas duas vezes, ambas pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010. Ambos os duelos foram vencidos pelos turcos pelo mesmo placar de 2 a 0. Um aconteceu em setembro de 2008, em território armênio, e outro em outubro de 2009, em campo turco.

Os destaques da Armênia são os atacantes Norberto Briasco Balekian, que atua no Boca Juniors e marcou um gol em cinco jogos neste ano, e Grant-Leon Ranos, que joga no Bayern de Munique e marcou 12 gols em 24 partidas em 2022-23.

O jogador armênio mais conhecido é Henrikh Mkhitaryan, da Inter de Milão. O meia-atacante já passou pelo São Paulo, Shakhtar Donetsk, Borussia Dortmund, Manchester United, Arsenal e Roma. Ele é multicampeão no futebol europeu, conquistando Campeonato Ucraniano e Copa Ucraniana, Supercopa da Alemanha, Supercopa da Inglaterra, Copa da Liga Inglesa, Liga Europa, Conference League e Supercopa da Itália. Porém, o atleta de grande sucesso europeu ficou de fora da convocação armênia.

Já pelo lado turco, os destaques da seleção são:

  • Mehmet Aydin, meia do Shalke 04, que fez 16 jogos na temporada
  • Arda Güler, meia do Fenerbahçe, de apenas 18 anos, que tem três gols e uma assistência em 21 jogos na temporada
  • Hakan Çalhanoğlu, meia da Inter de Milão, que tem três gols e cinco assistências em 36 jogos na temporada
Romulo Giacomin
Romulo Giacomin

Formado em Jornalismo na UFOP, passou por Mais Minas, Esporte News Mundo e Estado de Minas. Atualmente, escreve para a Premier League Brasil.