“Você pode ser um dos melhores do mundo”: a estadia de uma ex-joia brasileira no Arsenal

À época estrela da seleção brasileira sub-17, Geovane passou quase 9 meses no clube londrino

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“Você pode ser um dos melhores do mundo”: a estadia de uma ex-joia brasileira no Arsenal
Crédito: Acervo pessoal

O Santos é uma das mais famosas fontes de talentos do futebol. Entre craques consolidados como Pelé, Coutinho e Neymar, existem também diversos bons jogadores como Diego, Elano e Rodrygo. Esses nomes, no entanto, compõem apenas a ponta do iceberg, formado por inúmeras ex-joias que não conseguem reproduzir no profissional seus desempenhos das categorias de base.

Geovane Loubo, o Bananinha, é um dos “raios” que não geraram fagulha na Vila Belmiro. Vinculado ao Peixe desde os 14 anos, era um dos destaques nacionais da geração de 1992, levando a parceria caseira que tinha com Neymar para a seleção sub-17, onde atuavam com Philippe Coutinho, Casemiro e Alisson Becker.

Crédito: Acervo pessoal

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Um dos motivos do mineiro, natural de Teófilo Otoni, não ter tido continuidade no clube do litoral de São Paulo foi um imbróglio envolvendo o Arsenal, ainda quando tinha 17 anos.

“Tive dois contatos com o Arsenal, um aos 15 e outro aos 17 anos. Na primeira oportunidade, eu estava vinculado ao Santos, mas não tinha contrato profissional e passei cerca de um mês em Londres. Já na segunda oportunidade, eu tinha contrato profissional e acabei passando quase 9 meses no Arsenal, tentando conquistar a liberação por meios jurídicos. Em ambos os casos o clube buscou minha contratação, mas por diferentes motivos o negócio não se concretizou”, relatou o meia.

Hoje, aos 28 anos, Geovane conta com satisfação sobre os detalhes dos meses com os Gunners, período no qual diz ter aprendido muito. Em 2009, quando chegou em Londres determinado a permanecer, o meia-atacante transitava entre o time sub-23 (reserva) e o plantel principal para se adaptar.

“Mudou drasticamente minha realidade ainda com 17 anos. No Brasil, é totalmente diferente. A cobrança é diferente. O futebol inglês é mais pegado, tem mais contato, então eles cobravam muito a questão da vontade, da intensidade. Foi uma experiência que me ensinou bastante para o seguimento da minha carreira sobre a importância das questões físicas e táticas no esporte”, comentou.

Crédito: Acervo pessoal

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Perguntado sobre as diferenças de infraestrutura e funcionamento entre as categorias de bases no Brasil e na Inglaterra, Bananinha apontou para uma reestruturação recente desse setor nos grandes clubes do Brasil, mas valorizou o sistema que um clube de ponta como o Arsenal disponibiliza.

“Mesmo o Santos tendo uma das bases que forma mais jogadores de qualidade no mundo inteiro, ao menos na minha época, a infraestrutura era muito distinta. Um gigante europeu como o Arsenal tem todo um projeto minimamente pensado para o atleta de base, com bons campos, boas academias, planejamento logístico, competições bem organizadas, etc”, avaliou.

Em seu período como jogador do Arsenal, Geovane treinou com grandes atletas como Robin van Persie, William Gallas e outros que ainda se desenvolviam no clube, tais quais Samir Nasri, mas nenhum o impressionou tanto quanto Cesc Fábregas. O brasileiro também falou sobre Jack Wilshere, que compunha a safra de jogadores da base integrados ao profissional na sua época.

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“O Wilshere era o principal jogador entre os que estavam migrando da base para o profissional no período que cheguei. A expectativa era que fosse basicamente o sucessor do Fábregas. Atingiu um nível alto rapidamente, mas sofreu com lesões sérias e longas. É um jogador de muita qualidade, mas as lesões lhe custaram muito tempo”, lamentou.

Ainda na primeira ida – em 2007 –, após alguns dias de treino no clube, Geovane conta que se reuniu com Arsène Wenger e o francês lhe disse: “você tem potencial para se tornar um dos melhores jogadores do mundo”, palavras difíceis de não gerarem deslumbramento.

“O Wenger é o chamado ‘paizão’. Ele te ajuda, te dá conselhos, tenta extrair ao máximo as qualidades de um atleta jovem, entendendo também que o novato precisa de minutos para se adaptar, amadurecer e evoluir. Ele conversou comigo, me deixou muito tranquilo e se dispôs a me auxiliar como eu precisasse. Não ficou mais de duas décadas no Arsenal à toa”, acrescentou em tom de elogio ao histórico treinador francês.

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Após o arrastar de vários meses, Arsenal e Santos não entraram em acordo pela transferência de Geovane, que também não conseguiu a liberação na justiça. Temendo uma punição da Fifa pela contratação irregular de um jogador de base, o Arsenal saiu da jogada e o jovem teve que retornar a São Paulo.

“Existem fatores cruciais para que um jogador seja capaz de demonstrar sua qualidade com regularidade. Um deles é ter um bom planejamento de carreira, ao lado das pessoas certas e competentes para isso. As coisas acontecem extremamente rápidas nessa transição. Hoje você joga na base e não é conhecido, amanhã você sobe para o profissional, joga na televisão e todos te veem. Tudo ocorre muito cedo: oportunidades, decisões importantes, salários mais altos. É muito complicado para o mental de um jovem. No meu caso, o imbróglio entre Santos e Arsenal realmente prejudicou a carreira, pois eu tomei uma decisão e não consegui fazê-la valer. Fiquei sem poder atuar por meses, desgastei minha relação com o clube e não tive continuidade quando retornei.”

Depois do vencimento de seu contrato com o Santos, Geovane passou por Mogi Mirim, Linhares, Democrata (MG), entre outros clubes. Hoje, ele treina em sua cidade natal para manter a forma física. A experiência no Arsenal se tornou uma distante e saudosa memória, mas também uma lição para a construção de um atleta maduro e persistente.