Liverpool x Chelsea: 15 anos do gol fantasma de Luis Garcia na Champions

Gol polêmico de Luis Garcia decidiu semi da UCL entre Liverpool e Chelsea em 2005

Liverpool x Chelsea: 15 anos do gol fantasma de Luis Garcia na Champions
Adrian Dennis/AFP via Getty Images

O Liverpool tem como um de seus grandes momentos na história o Milagre de Istambul. Mas teve polêmica para chegar até lá. No dia 3 de maio de 2005, o Liverpool enfrentou o Chelsea na semifinal da competição europeia. Após um 0 a 0 em Stamford Bridge, a vaga foi decidida com um 1 a 0 em Anfield. O gol da vitória do Liverpool sobre o Chelsea foi marcado por Luis Garcia. Esse tento gerou muita confusão e até hoje é lembrado como o “gol fantasma”.

A PL Brasil relembra agora os 15 anos do gol de Luis Garcia, que levou o Liverpool a mais uma decisão europeia 

Contexto do confronto

Para os dois times, como não poderia deixar de ser, o duelo era muito importante. Mas por motivos diferentes.

O Liverpool não chegava a uma final da Champions League desde 1985 (ainda Copa dos Campeões), quando perdeu para a Juventus. A decisão foi marcada pela Tragédia de Heysel, em confusão com os torcedores da Juventus que causou 39 mortes e a suspensão dos times ingleses de qualquer competição continental por cinco anos.

Voltando a 2004/2005, a Champions era a grande salvação dos Reds. Na Premier League, a equipe de Rafa Benítez brigava até o fim pela vaga na UCL – não conseguiu, ficando em quinto. Além disso, amargou a derrota por 3 a 2 na final da Copa da Liga para o mesmo Chelsea. A semifinal europeia era questão de honra.

Para o outro lado, era apenas o começo de uma história. Comprado em 2003 por Roman Abramovich, o Chelsea começou então o seu período mais vitorioso. E a temporada 2004/2005, a primeira de José Mourinho nos Blues, foi de muitas glórias.

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Após o título europeu com o Porto em 2003/2004, o português chegou na Inglaterra para fazer história. E o Chelsea vinha em estado de graça para o confronto decisivo. Três dias antes, em 30 de abril, a vitória por 2 a 0 sobre o Bolton sacramentou seu primeiro título da Premier League (primeira liga em 50 anos). Somando-se à já citada taça da Copa da Liga, pode-se dizer que era indiscutivelmente o time mais forte do país.

Chelsea campeão 2004/2005
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O Liverpool já era tetracampeão europeu e chegava à sétima semifinal da Champions League. Já o Chelsea, apenas em sua terceira participação nas semis, tentava superar a campanha de 2003/2004, quando foi eliminado nesta fase pelo Monaco. Um time de muito nome contra outro que tentava consolidar o seu, em um duelo eletrizante.

Ida zerada e volta polêmica

No dia 26 de abril de 2005, Chelsea e Liverpool chegavam a Stamford Bridge para o jogo de ida. Os Blues eram favoritos e haviam vencido os três jogos da temporada contra os Reds, mas daquela vez não saíram do 0 a 0. Resultado lamentado pelos mandantes e comemorado pelos visitantes.

O Chelsea superou rapidamente conquistando a Premier League no dia 30, após a vitória contra o Bolton, com três rodadas de antecedência. Mas passada a festa, era hora de Anfield receber um histórico segundo jogo de semifinal da Champions League. Em 3 de maio, chegou o tão falado confronto – e que teve sua polêmica logo de cara.

Foi aos três minutos do primeiro tempo. Após jogada pela esquerda, Steven Gerrard lançou a bola na área para Milan Baros. O tcheco dividiu com seu compatriota, o goleiro Petr Cech, e a bola sobrou limpa para Luis Garcia, que se aproveitou da confusão.

O espanhol se adiantou à defesa e tocou para um gol aberto. A bola desviou em John Terry e foi entrando, até ser cortada por William Gallas. A torcida, que já reclamava de pênalti de Cech em Baros, clamou pelo gol. E o árbitro Lubos Michel e o assistente Roman Slysko, ambos eslovacos, apontaram: a bola cruzou a linha e gol legal de Luis Garcia, fazendo Liverpool 1 a 0 no Chelsea.

Luis Garcia marca gol fantasma no Chelsea
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Na época não havia uma tecnologia de linha de gol tão apurada como hoje. As várias câmeras da transmissão da Uefa mostraram ângulos diferentes, mas nenhum pareceu realmente conclusivo. Até hoje, ainda há dúvidas se aquela bola realmente entrou.

Mesmo assim, Anfield enlouqueceu. Os torcedores dos Reds comemoraram muito o quinto gol de Luis Garcia naquela Champions (artilheiro do time na campanha).

“Foi incrível. Eles tinham uma máquina para medir o quão alto a Kop gritava naquela noite, e creio que quando o gol foi marcado, ela apontou uma das maiores marcas em decibéis na história do esporte”, lembrou Garcia ao The Guardian em 2014.

Ao Chelsea, que se destacava justamente pela forte defesa que levou apenas 15 gols em 38 jogos da PL (recorde até hoje), não restava outra opção se não partir ao ataque. Se no primeiro tempo o jogo foi mais equilibrado, na etapa final os londrinos foram para cima com tudo. No Liverpool, a estratégia era se segurar e aproveitar os contra-ataques.

As duas principais chances dos Blues foram mais para o fim. Primeiro, uma falta rasteira de Frank Lampard que obrigou bela defesa de Jerzy Dudek. Depois, no último lance, após bate rebate, Eidur Gudjohnsen teve excelente chance na pequena área, mas mandou para fora. O 1 a 1 classificaria o Chelsea pelo gol fora de casa, mas não veio.

Fim de jogo, 1 a 0 e Liverpool classificado para a final da Uefa Champions League. Mas a polêmica do “gol fantasma” se estendeu.

Liverpool x Chelsea UCL 2004/2005
Laurence Griffiths/Getty Images

Repercussão do gol fantasma

José Mourinho demonstrou já no ato que não concordava com a decisão da arbitragem. E após a partida, não poupou críticas. O português classificou o lance como “ghost goal” (daí a expressão) e disse: “ninguém sabe se a bola realmente entrou, nem o bandeira sabe”.

O Special One comentou de forma negativa não apenas a decisão do gol, mas também a postura do adversário. “Foi um gol que veio da lua, das arquibancadas de Anfield. O melhor time perdeu. Depois que eles fizeram o gol, só um time jogou, o outro apenas se defendeu. O Liverpool marcou, se você puder dizer que eles marcaram, porque talvez deva dizer que o bandeirinha marcou”, disparou.

E até hoje Mourinho tem esta opinião clara sobre o assunto. Em maio de 2019, por exemplo, após a derrota do Liverpool por 3 a 0 para o Barcelona na ida da semifinal da UCL, ele foi perguntado na transmissão que era comentarista se havia a chance da virada (que aconteceu). O português elogiou a torcida dos Reds, mas depois foi irônico:

“Anfield é um lugar mágico para se jogar, um lugar bonito para estar. Eles (a torcida) podem até marcar gols que os jogadores não fizeram, como em 2005. Não foi Garcia que marcou o gol, foi a torcida. Mas agora isso não é possível com o VAR e a tecnologia da linha do gol” – José Mourinho.

De um lado houve muita reclamação, do outro muita festa. O capitão Steven Gerrard resumiu o sentimento logo após o jogo: “Não sei se foi gol ou não. As pessoas vão comentar isso, mas o que importa é que estamos muito felizes e vamos para Istambul”.

O próprio autor do gol ficou marcado por isso. Luís Garcia teve três temporadas no Liverpool e rodou por clubes como Atlético de Madrid e Barcelona, além da seleção espanhola. Mas o “gol fantasma” acabou sendo seu ponto alto.

“Quando estávamos na capital Muscat (em Omã), fomos a um shopping e vi um homem chegando com uma camisa vermelha. Ele pediu uma foto, eu aceitei e depois ele perguntou: ‘Foi gol ou não?’. Essa é a questão, não é? Eu deveria pedir uma moeda para cada vez que alguém me pergunta sobre isso” – Luís Garcia ao The Guardian em 2014.

Mas dá para dizer que o próprio Garcia também alimenta a história. Todo ano, em sua conta no Instagram, o ex-meia publica fotos ou vídeos onde está fantasiado de fantasma no dia 31 de outubro (Dia das Bruxas), em referência ao lance.

O árbitro Lubos Michel também se pronunciou. Na época da partida, ao ser questionado, ele deixou bem claro: seguiu seu assistente, tomou a decisão correta e teria expulsado Cech por um possível pênalti em Baros se não fosse dado o gol.

“Reagi com base na reação do assistente (…) e estou certo de que foi uma decisão correta. Acredito que o Chelsea preferia o gol validado do que ter um pênalti contra e jogar com dez pelo resto da partida (…). Eu teria dado o pênalti e expulsado o goleiro Petr Cech”, disse o eslovaco.

E até a imprensa trouxe visões diferentes. O jornal The Independent publicou uma análise de Mike Spann, professor da Escola de Engenharia Eletrônica, Elétrica e de Computação da Universidade de Birmingham, afirmando que foi gol. Já uma observação eletrônica da Sky Sports cravou o contrário. Tudo na medida do real: inconclusivo.

Aquele foi o começo de uma rivalidade que cresceu muito rapidamente. Para se ter uma ideia, depois daquele jogo, entre as temporadas 2005/2006 e 2009/2010, os dois times se enfrentaram 21 vezes em competições domésticas ou continentais.

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No próprio mata-mata da Champions, houve dois novos confrontos. Em 2006/2007, de novo na semifinal, deu Liverpool; já em 2008/2009, nas quartas, o Chelsea deu o troco. Além disso, ambos também se enfrentaram nos grupos em 2005/2006 – dois empates sem gols.

Os dois já superaram seus respectivos fantasmas com o passar do tempo. O Liverpool venceu a final em 2005 de forma espetacular e chegou a outras duas em 2018 e 2019 (vencendo a última). Já o Chelsea jogou as finais de 2008 e 2012 e, na última, enfim realizou seu grande objetivo e conquistou a Europa.

Mas inegavelmente, o que aconteceu em Anfield no dia 3 de maio de 2005 marcou torcedores de Liverpool e Chelsea para sempre. E uma coisa é certa: a polêmica jamais irá ser resolvida.

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