Brigas, polêmicas e muita rivalidade: os 15 anos da Batalha de Old Trafford

Em 2003, Manchester United e Arsenal empataram em um dos maiores jogos da história

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Dois dos maiores clubes da Inglaterra, Manchester United e Arsenal não vivem grandes momentos. Mas há alguns anos atrás, os dois tiveram um período de dominância como os maiores times do país. E a Batalha de Old Trafford ajudou a alimentar isso.

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Do começo da Premier League, na temporada 1992/93, até 2003/04, foram 12 edições da liga. Destas, a dupla venceu 11 (oito para os Red Devils e três para os Gunners). Apenas o Blackburn em 1993/94 quebrou a sequência.

Obviamente, a força dos times e as conquistas da época fizeram com que ambos travassem vários duelos decisivos. Com isso, a rivalidade entre eles aumentou muito, tornando-se talvez a maior do país no período em questão.

Tudo isso acabou fazendo com que os dois clubes travassem alguns duelos que entraram para a história do futebol inglês. E uma dessas grandes partidas completa 15 anos neste dia 21 de setembro.

United e Arsenal eram os grandes clubes da Inglaterra naquele período (Foto: Neal Simpson/EMPICS via Getty Images)

Na ocasião, em 2003, os rivais foram para o duelo da sexta rodada da Premier League 2003/04 em Manchester. O que ninguém sabia era que aquele jogo seria apelidado no futuro como a “Batalha de Old Trafford”.

Por isso, o PL Brasil relembra agora como foi o jogo que acabou se tornando um dos mais emblemáticos na campanha invicta do Arsenal campeão da temporada 2003/04.

Crescimento da rivalidade entre times e jogadores apimentou o duelo

Como dito acima, foram vários os jogos históricos entre eles. Em 2001, o United aplicou um sonoro 6 a 1 no Arsenal.

No ano seguinte, com o histórico gol de Wiltord no Old Trafford, os Gunners venceram por 1 a 0 e conquistaram a Premier League na casa dos rivais.

Em 2005, o time de Manchester venceu por 2 a 0, encerrando a série invicta de 49 jogos do Arsenal na PL. O pós-jogo teve direito a briga no vestiário e Cesc Fábregas atirando um pedaço de pizza em Sir Alex Ferguson.

E não eram só as instituições que não nutriam simpatia entre si no fim dos anos 1990 e começo dos anos 2000. Dentro de campo, alguns jogadores encarnavam bem esse espírito de rivalidade.

Atletas como Sol Campbell e Martin Keown, pelo Arsenal, e Paul Scholes e Gary Neville, pelo Manchester United, apareciam sempre nos clássicos. Muito por seus desempenhos e pelas confusões.

Keane e Vieira eram os grandes personagens da rivalidade (Foto: Gary Prior/Getty Images)

Mas dois desses jogadores capitalizavam as atenções nas brigas: Roy Keane e Patrick Vieira. Os volantes, conhecidos pela grande capacidade técnica e pela força física elevada, assumidamente não se gostavam e eram grandes os personagens da rivalidade.

Em 2013, ambos participaram do documentário “Best of Enemies”; da ITV. No programa, eles ficaram cara a cara por uma hora debatendo sobre grandes momentos da rivalidade na época, especialmente entre os dois.

Em meio a palavras de carinho e algumas discussões mais fortes, uma declaração de Keane destaca bem o sentimento do United na contra o Arsenal na época (e vice-versa, confirmado por Vieira).

“tinha muito ódio do Arsenal, porque eles eram nossos grandes rivais. Não há outro termo quando lembro que me preparava para batalhar contra o Arsenal. Ódio era a palavra” – Keane.

Partida foi amarrada e teve poucas chances de gol

O duelo em 21 de setembro de 2003 foi válido pela sexta rodada da PL 2003/04. O Manchester United vinha com 12 pontos: quatro vitórias e uma derrota em cinco rodadas. Já o Arsenal venceu quatro e empatou um até ali, com 13.

Ambos estavam atrás do Chelsea, que também tinha 13 e o mesmo saldo do Arsenal. Porém os Blues haviam marcado 15 gols até então, contra 11 dos Gunners.

Para completar, no dia anterior, o Chelsea já havia disparado com 16 ao aplicar 5 a 0 no Wolverhampton. Ou seja, o clássico ganhava contornos cada vez mais importantes.

Old Trafford lotou para um duelo que prometia muito (Foto: Neal Simpson/EMPICS via Getty Images)
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No primeiro tempo, muitas disputas físicas e apenas uma grande chance. Aos 13, Ryan Giggs bateu uma falta de longe na área e a bola passou por todo mundo, acertando a trave.

Oito minutos depois, Roy Keane recebeu o primeiro cartão amarelo. Ao total, foram oito amarelos e 31 faltas, números muito altos para o futebol inglês.

O confronto foi bem pegado, como era típico da rivalidade. Além disso, muitos jogadores das duas equipes gostavam do jogo físico, o que naturalmente também tornava o duelo mais tenso. Mas as chances de gol foram escassas.

Tirando a bola na trave “sem querer” de Giggs, nenhuma equipe teve chances reais de marcar. O Arsenal, mais fechado, se segurava bem, enquanto o United não conseguia encontrar os espaços necessários.

Mesmo com algumas chegadas mais duras em certos momentos, o jogo parecia caminhar para um 0 a 0 sem muita emoção e com poucos fatos notáveis. Mas o que aconteceria nos minutos seguintes entraria para a história.

Jogo explodiu nos últimos minutos e a batalha de Old Trafford ganhou vida

Aos 32 do 2º tempo, Vieira fez falta em Quinton Fortune e recebeu cartão amarelo. Apenas mais um lance normal, até que quatro minutos depois, o volante francês foi o personagem do começo do estopim.

Em um lançamento ao ataque do Arsenal, Vieira dividiu pelo alto com Ruud Van Nistelrooy, que se apoiou no francês para tentar a cabeçada. O juiz deu falta do holandês, mas o volante do Arsenal não quis deixar barato.

Vieira foi expulso em confusão com Van Nistelrooy e o clima ficou tenso (Foto: John Peters/Manchester United via Getty Images)

Vieira levantou a perna e deu um leve chute no ar, na direção de Van Nistelrooy. O centroavante do United não foi atingido, mas ainda assim desviou, o que chamou ainda mais a atenção. O árbitro Steve Bennett não teve dúvidas: segundo amarelo e vermelho para o volante do Arsenal.

A expulsão gerou uma grande revolta. Logo um grande bolo de jogadores de amarelo se formou em volta do juiz, que foi cada vez mais acuado. Vieira, depois de afastado, voltou para a confusão tentando resolver as contas com Van Nistelrooy.

Depois do jogo, Vieira demonstrou sua indignação com o atacante rival.

Estou com muita raiva do Van Nistelrooy. Ele tentou me pisar e depois simulou na disputa. Ele trapaceou”, afirmou o camisa 4.

Resultado: bandeirinhas no campo e mais problemas. Depois de um bom tempo e com Van Nistelrooy também levando amarelo, os ânimos se acalmaram e o jogo recomeçou.

Os Red Devils partiram com tudo para o ataque, e os Gunners se seguravam com 10 em campo. Lances duros continuaram a acontecer e o clima era cada vez mais tenso. Mas a gota d’água veio nos acréscimos.

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Aos 45 do 2º tempo, cruzamento de Gary Neville na área e Keown divide espaço com Diego Forlán. O uruguaio caiu e Steve Bennett não teve dúvidas: pênalti.

Os jogadores de amarelo partiram para cima do árbitro. Furiosos, não concordavam com a marcação. Inerentes a isso, os de vermelho esperavam pelo pênalti da vitória. E era justamente Ruud Van Nistelrooy quem iria bater.

Mas o que ninguém esperava aconteceu. No último lance do jogo, o holandês soltou a bomba e carimbou o travessão de Jens Lehmann. Enquanto a torcida dos Red Devils não acreditava, os Gunners celebravam como um gol.

O camisa 10 do United perdeu o pênalti e desperdiçou a chance da vitória (Foto: Matthew Peters/Manchester United via Getty Images)

Logo após o erro, Keown partiu para cima de Van Nistelrooy e comemorou bastante. A bola ainda voltou para a área do Arsenal, mas a defesa cortou e o juiz encerrou o jogo. A cena a seguir entraria para a história da Premier League.

Quando o árbitro apitou pela última vez, os jogadores do Arsenal partiram para cima de Van Nistelrooy. Ainda indignados com a expulsão de Vieira e com um histórico recente, segundo eles, de simulações do holandês, não pouparam na celebração.

Todos estavam em volta do atacante rival e comemoraram furiosamente. Lauren chegou a empurrar Van Nistelrooy por trás, e a confusão novamente recomeçou.

Fortune, Gary Neville, Cristiano Ronaldo e Mikaël Silvestre tomaram as dores e chegaram, formando um bolo de confusão. O juiz chegou para acalmar os ânimos e só depois de algum tempo as coisas se tranquilizaram.

Ninguém foi punido sequer com cartão. Só depois de tudo isso o jogo foi definitivamente encerrado. Mas a história já estava escrita em Old Trafford.

Sobraram punições em uma das últimas grandes mostras de rivalidade das equipes

Após o jogo, sem dúvida, a imprensa repercutiu bastante a confusão. As principais críticas foram ao técnico Arsène Wenger e aos jogadores do Arsenal, pelo comportamento – ou pela falta dele.

A Federação Inglesa agiu. O Arsenal recebeu as maiores punições. O clube foi punido com 175 mil libras, e quatro jogadores também foram sancionados com suspensões e multas.

Em cena histórica, os jogadores do Arsenal dispararam furiosamente para cima de Van Nistelrooy (Foto: Tom Purslow/Manchester United via Getty Images)

Lauren foi suspenso por quatro jogos e multado em 40 mil libras; Keown recebeu três jogos de suspensão e 20 mil libras de multa; Vieira foi suspenso por um jogo e multado em 20 mil libras; por fim, Parlour também ficou fora um jogo e recebeu 10 mil libras de multa.

Ashley Cole foi apenas multado em 10 mil libras. Lehmann foi outro que recebeu multa inicialmente, mas depois acabou sendo absolvido.

O Manchester United não teve suspensos. Ryan Giggs e Cristiano Ronaldo inicialmente foram absolvidos, mas em julgamento três meses depois, receberam 7,5 mil libras e 4 mil libras de multa, respectivamente.

Após o jogo, cada um tentou defender seu lado. Arsène Wenger atacou Van Nistelrooy e o culpou pelo incidente.

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“Acho que o Van Nistelrooy não se ajuda. Ele é um grande jogador, mas está sempre simulando. Ele parece ser um cara legal, mas no campo nem sempre tem atitudes esportivas. Se o Patrick (Vieira) foi expulso, ele também deveria ter sido”, disse o ex-treinador do Arsenal.

Já Sir Alex Ferguson defendeu seu atacante e disse que seus jogadores “agiram positivamente”. Mas uma declaração em sua autobiografia, anos depois, colocou um pouco mais de pimenta na histórica discussão.

Arsène tinha algo com o Van Nistelrooy. Eu me lembro dele dizendo que teve a chance de contratar o Ruud, mas decidiu que ele não era bom o suficiente para jogar no Arsenal. Eu acreditei nele no sentido de que Nistelrooy talvez não seja um grande jogador. Mas ele era um grande artilheiro”, disse o ex-treinador.

Ao fim do ano, o Arsenal conquistou a PL de maneira invicta (Foto: Reprodução/Arsenal FC)

Jogo ficou marcado na história do clássico

O jogo não recebeu o apelido de “Batalha de Old Trafford” no ato, mas ficou muito conhecido tempos depois. Não apenas pelas confusões, mas porque foi a maior chance que o Arsenal teve de perder a sua invencibilidade naquela PL.

É a partida mais emblemática daquele campeonato junto com o North London Derby na 34ª rodada. Na ocasião, Tottenham e Arsenal empataram em 2 a 2 no White Hart Lane. O resultado deu o título aos Gunners na casa dos Spurs, seus maiores rivais.

O Arsenal conquistou o histórico título sem derrotas. Foram 26 vitórias e 12 empates na competição.

Foi a segunda e última vez que um time foi campeão nacional invicto na Inglaterra. Junto com aquele Arsenal, apenas o Preston North End no distante 1888/89 conseguiu o feito.

Aquela partida acabou sendo uma das últimas de grande rivalidade entre as equipes. Com o tempo (especialmente após 2006), o Arsenal perdeu muita força. O time londrino nunca mais venceu a Premier League depois daquela temporada.

O United seguiu muito forte e ganhando títulos, tornando-se inclusive o maior campeão inglês. Mas com a saída de Ferguson do comando em 2013, também caiu bastante. Hoje, ambos tentam se reerguer e voltar aos tempos de triunfos e rivalidade.

Rivalidade esta que ganhou um capítulo histórico e eterno em 21 de setembro de 2003.