Tempos de adaptação em Southampton (Divulgação/Getty Images)

Resiliência, substantivo feminino que significa a capacidade que algum corpo tem de voltar à sua forma original após ser submetido à elasticidade. No caso da psicologia, é a capacidade que um ser humano tem de se recuperar após momentos de crise, trauma ou sofrimento. Está muito associado à adaptação às novas realidades em momentos de perda, abandono e mudanças radicais. Em outras palavras, resiliência é a capacidade de se ferrar e continuar bem com você mesmo. Temos muitos exemplos disso em todo o mundo, mas nosso foco é futebol e sem mais delongas vamos falar de um dos exemplos máximos dos últimos anos no esporte: o Southampton!

A cidade de Southampton é uma atração à parte. Com belas praias e perto de Londres, é um destino comum para os ingleses no verão. Entretanto, como todas as cidades praianas, ela sofre com a falta de movimentação turística nas épocas de outono e inverno que, convenhamos, são muito rigorosos na Inglaterra.  Nos últimos anos, contudo, a cidade se acostumou a pessoas vindo para suas ruas com objetivo esportivo. O Saint Mary’s Stadium recebe os jogos do clube do município e sempre com bom público, tanto dos de casa quanto dos visitantes. E isso começou a crescer mais e mais após o ano de 2009.

Nessa época, o Southampton figurava na amarga terceira divisão inglesa e, assim como o Bournemouth, que já falamos anteriormente, o clube teve uma ascensão meteórica rumo à Premier League, ou, a primeira divisão inglesa, na qual eles sempre costumaram frequentar. No atual formato, os Saints permaneceram na elite de 1992 até 2005 quando foram rebaixados ao Championship. Em 2009 veio o fundo do poço com a queda para a terceira divisão. Ali, a equipe começou sua escalada e subiu para a segundona, em 2011. Apenas um ano depois conseguiu o acesso de volta à primeira divisão inglesa. Nesse meio tempo alguns jogadores começaram a se destacar: Rickie Lambert, Fonte, Schneiderlin, Lallana, Michail Antonio e Oxlade-Chamberlain. Sim, todos esses caras jogaram a terceirona inglesa. Lambert, inclusive, foi o artilheiro do time por quatro temporadas seguidas.

Durante o torneio da segunda divisão, em 2011/12, começaram os cortes. Oxlade-Chamberlain foi vendido ao Arsenal, fato que o levou à Eurocopa de 2012 pela seleção da Inglaterra. Nessa época, chegavam da base duas promessas chamadas Luke Shaw e James Ward-Prowse. Além da chegada de Jack Cork.

                  Mauricio Pochettino ficou apenas uma temporada e meia no clube (Divulgação)

Já na Premier League no ano seguinte, Mauricio Pochettino assume no meio do campeonato e chegam junto com ele Yoshida e Clyne, além da volta à regularidade de Jason Puncheon. O time terminou em 14º lugar com 41 pontos.  A temporada posterior, 2013/14 , foi a última que o clube pode experimentar paz em seu plantel. Após o primeiro ano inteiro de Pochettino no comando, os Saints acabaram em um glorioso oitavo lugar e com um elenco de dar inveja. E deu!

A janela de verão da temporada 2014/15 foi massacrante para a equipe praiana do sul. Pochettino deixou o comando do clube e foi treinar o Tottenham. Lallana, Lovren e Lambert são negociados com o Liverpool, Luke Shaw se transfere para o Manchester United, Callum Chambers e Jason Puncheon desembarcam em Londres para fecharem com o Arsenal e Crystal Palace, respectivamente. Muitos consideraram que o time iria afundar pois seus maiores destaques haviam saído. O contratado para substituir o técnico argentino foi o estreante na Premier League, Ronald Koeman e os atletas que vieram para substituir os desertores pareciam não estar no mesmo nível. Entre eles estavam Pellé, Tadic, Shane Long e um ainda não muito conhecido Sadio Mané. De maneira impressionante, o Southampton melhorou a sua performance e acabou em um honroso sétimo lugar no campeonato. A solidez defensiva de Koeman e as transições rápidas surtiram grande efeito e o St Mary’s Stadium se tornou um local temido para os adversários.

        Ronald Koeman, responsável por algumas das melhores campanhas do clube (Divulgação)

E quando todos pensavam que não poderia melhorar, eis que chega a temporada 2015/16. Mas logo de cara acontecem duas perdas que os torcedores consideraram irreparáveis: Nathaniel Clyne é vendido ao Liverpool e Morgan Schneiderlin é vendido ao Manchester United. Dois pilares da ótima campanha da equipe na última temporada estavam de saída. Entretanto, o Southampton, orientado por Koeman, foi ao mercado e contratou muito bem. Trouxe Oriol Romeu, uma ex-promessa da base do Barcelona com passagem pelo Chelsea, mas que andava meio desacreditado no Stuttgart, da Alemanha. Trouxe também Cédric Soares, além de Cuco Martina, Jordy Clasie, Charlie Austin e o incontestável Virgil van Dijk! A temporada começou e os Saints foram cravando seu lugar e viram o Leicester ser campeão. Porém, se o sétimo lugar do torneio passado tinha sido motivo de êxtase para os torcedores, o sexto lugar dessa temporada mostrou a força do time, principalmente em casa.

Tudo parecia estar muito bem até que logo após o final da ótima competição com vaga garantida na Liga Europa, o treinador Ronald Koeman é anunciado no Everton! E como se não bastasse isso, um dos melhores jogadores do time, Sadio Mané, é contratado imagina por quem? Exatamente, Liverpool! Junto com ele saíram Graziano Pellé, para o futebol chinês; o importantíssimo Victor Wanyama, para o Tottenham e por último, já nessa janela de janeiro, o eterno capitão José Fonte, que foi para o West Ham! Essa temporada tinha tudo para ser um desastre pois quem assumiu o cargo foi Claude Puel, treinador francês que só tinha atuado em seu país, com uma liga muito menos competitiva do que a Premier League. As contratações de jovens como Pierre-Emile Højbjerg, ex-pupilo de Guardiola nos tempos de Bayern de Munique; Redmond, do rebaixado Norwichn e Boufal, jovem marroquino habilidoso, deixaram o torcedor com um pé atrás pois parecia faltar experiência ao time.

           Virgil van Dijk, um dos pilares desse novo Southampton (Divulgação/BPI/Michael Zemanek)

Puel chegou com um time para repor peças. Sem seu homem-gol principal, teve que contar com Charlie Austin, que atuava pelo QPR na Championship. Sem Wanyama, teve que apostar em Romeu e sem Mané teve que apostar em Redmond. E advinhem só? Deu certo! A temporada dos Saints não é brilhante, eles ocupam a 11ª colocação, mas claramente é um time que tem mostrado muita fibra e bom padrão de jogo. Além de tudo, na última quarta, 25, eles bateram o Liverpool em Anfield e se classificaram para jogar a final da Copa da Liga em Wembley, contra o Manchester United. Detalhe: sem Van Dijk, um dos principais zagueiros da Premier League, que está lesionado e sem Charlie Austin também lesionado.

Ainda há mais 16 jogos pelo campeonato inglês e há possibilidade de o time pegar uma boa posição na parte de cima da tabela. Motivação não falta. James Ward-Prowse, jovem prata da casa, tem assumido a titularidade em muitas partidas e feito boas exibições, Jay Rodriguez voltou de lesão há um tempo e tem contribuído com o ataque do alvirrubro. A grande surpresa seja, talvez, o zagueiro Jack Stephens que assumiu a difícil tarefa de substituir Van Dijk ao lado de Yoshida e fez uma excelente partida com o Liverpool na última quarta.

           Claude Puel, o homem por trás dessa terceira reconstrução em poucos anos (Divulgação/Sky Sports)

Claude Puel tem mostrado que mesmo sem estrelas, o elenco do time sulista é forte para brigar por boas posições e não vai deixar de pelejar bravamente para manter as campanhas dignas que seus antecessores obtiveram. O francês talvez esteja com o pior elenco do Southampton em pelo menos quatro ou cinco anos, sem nenhum craque e ninguém que desequilibre, mas conta com seu jogo coletivo e espírito de equipe para deixar uma marca na história do povo da cidade portuária.

Talvez sirva até como lição de vida o fato de o Southampton nunca se entregar e tirar forças de onde não parece ter para superar as dificuldades e intempéries que o (Liverpool) mercado impõe. Resiliência é a melhor palavra para analisar esse time tão tradicional e que briga com unhas e dentes para manter-se com um bom futebol.

Ferrar-se e continuar bem com si mesmo, essa é a história recente desse incrível time do sul da Inglaterra.

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