por Pedro Gilio

Os primeiros anos da década de 1960 foram grandiosos para o Tottenham Hotspur. Comandados pelo técnico Bill Nicholson, o “Mr. Spurs”, e com Jimmy Greaves – o maior artilheiro da história do clube – como seu grande nome, a torcida do Spurs viu o seu time levantar a taça do Campeonato Inglês pela segunda vez em sua história, em 1961. No mesmo ano, pôde comemorar o primeiro double – título da Liga e da Copa em uma mesma temporada – de um clube inglês no século XX com a conquista da Copa da Inglaterra, feito que voltou a se repetir em 1962.

Três títulos conquistados em duas temporadas, sem contar as duas Supercopas da Inglaterra. Aquele time fazia história. E queria mais. As ilhas britânicas eram pouco. Se em 1962 o Tottenham parou na semifinal da Copa dos Campeões da Europa, a percursora da atual Champions League, para o Benfica, que terminou campeão, em 1963, o Spurs ganhou a chance de disputar a Recopa Europeia por ter conquistado a Copa da Inglaterra no ano anterior.

Aquele grupo estava destinado a brilhar, a fazer história. E fez. Nunca um clube britânico havia conquistado um título europeu do escalão da Recopa, torneio que reunia apenas os campeões das copas nacionais. O Tottenham foi lá e destruiu este tabu.

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Na primeira fase da competição, um adversário britânico: Rangers. Logo na estreia, um sonoro 5 a 2 dentro de casa. No jogo de volta, nova vitória, desta vez por 3 a 2, e classificação garantida com um 8 a 4 no agregado. Na fase seguinte, o único deslize dos ingleses no torneio: derrota por 2 a 0 para os tchecos do Slovan Bratislava. Porém, o Spurs mostrou a sua força dentro de casa e aplicou uma histórica goleada por 6 a 0. O resultado colocou a equipe novamente em uma semifinal de torneio. A chance de fazer história estava novamente nas mãos do Tottenham.

Na semifinal, nada de goleada. Enfrentado o OFK Beograd, da antiga Iugoslávia, arrancou um triunfo por 2 a 1 fora de casa e teve tranquilidade para garantir vaga na grande decisão ao bater os iugoslavos por 3 a 1 em White Hart Lane. O adversário da decisão? Os atuais campeões: Atlético de Madrid.

No dia 15 de maio de 1963, todos os caminhos levavam ao estádio do Feyenoord, em Roterdã, na Holanda. Diante de 49 mil pessoas, Tottenham Hotspur e Atlético de Madrid entraram no gramado em busca da história. Os espanhóis querendo repetir o feito do ano anterior. Os ingleses procurando a taça que os tornariam pioneiros no Reino Unido.

Tottenham título europeu

Vestindo um belíssimo uniforme inteiramente branco, o Tottenham Hotspur não tomou conhecimento do seu rival. Sua estrela, Jimmy Greaves, vestindo a camisa 10, foi o primeiro a marcar. John White ampliou após uma falha do goleiro espanhol ainda na primeira etapa. Na volta do intervalo, Collar descontou para o Atlético, de pênalti, e deixou a torcida do Spurs preocupada.

Eis que um improvável herói resolveu mostrar protagonismo. O ponta esquerda Terry Dyson, um dos poucos atletas daquele esquadrão histórico que não atuou pela seleção inglesa, recebeu uma cobrança de lateral, aplicou um lindo chapéu e bateu para o gol. O goleiro do Atlético novamente colaborou e o Tottenham abriu vantagem novamente.

Com 3 a 1 no placar, os espanhóis se lançaram ao ataque e viram Jimmy Greaves marcar o seu segundo aos 35 minutos do segundo tempo. 4 a 1! O Tottenham estava com as duas mãos na taça. Mas ainda faltava mais um do nome da noite. E ele veio. Aos 40 minutos do segundo tempo, Terry Dyson mostrou que a sua perna esquerda estava calibrada e, de fora da área, fechou o placar. Tottenham Hotspur campeão da Recopa Europeia. O primeiro time inglês a conquistar um título europeu de primeiro escalão.

O Spurs manteve a sua veia pioneira e, menos de 10 anos depois, em 1972, conquistou a primeira edição da Copa da UEFA, percursora da atual Europa League. Seguindo o lema “Audere est Facere” – “ousar é fazer”, em português, ou “to dare is to do”, em inglês -, o Tottenham ousou e voou longe. Repetiu o título da Copa da UEFA em 1984 e, com três títulos europeus, está entre os clubes inglês com mais taças continentais em sua sala de troféus.

Ousar é fazer. Ousar é Tottenham.

por Pedro Gilio

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