O que o Leicester da temporada 2015/2016 e o Chelsea de 2016/17 têm em comum? É óbvio pensar que ambos têm a liderança do campeonato nessa época do ano assegurada e ambos tem jogado um futebol honesto. Entretanto, os dois clubes azuis de partes diferentes da Inglaterra têm um fator humano em comum: o fator N’Golo Kanté! O meia francês foi fundamental na inesperada conquista do título dos Foxes no torneio passado e tem sido titular absoluto com os Blues nessa temporada que têm voado baixo. Pode parecer uma grande coincidência, mas na verdade se assemelha mais a um fato.

Kanté, no alto de seus 25 anos e de seu 1,69 de altura, tem se mostrado um jogador insaciável no meio campo. Corre como poucos, rouba a bola como poucos e parece nunca se cansar. É o tipo de jogador que muitas vezes é classificado como o “carregador de piano”, aquele que tem como principal função e característica trabalhar para ajudar e sustentar a defesa do time. É o famoso “volante de marcação”. Entretanto, Kanté é mais do que simplesmente um volante recuperador de bolas. O francês tem qualidade no passe, sabe distribuir o jogo e sabe olhar seus companheiros para iniciar uma jogada, ou seja, podemos classificá-lo como um verdadeiro meia. E tudo isso em altíssima velocidade. Para ilustrar, vale lembrar o divertido relato de seu ex-técnico Claudio Ranieri:

“Ele corre tanto que eu pensei que ele devia ter um pacote de baterias escondidos nos seu calção. Ele nunca parou de correr no treinamento. Eu tive que dizer a ele: ‘Ei, N’Golo, calma. Não corra atrás da bola todas as vezes, ok?’ Ele me disse: ‘Sim, chefe. Sim. Ok’. Dez segundos depois, eu olhei e ele estava correndo novamente”.

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O italiano conseguiu descrever o que nós, amantes da Premier League, sentimos ao assistir um jogo do Chelsea nessa temporada ou do Leicester na anterior. Kanté não para!

Atuando pelo Leicester na última temporada, o           francês mostrou ao mundo o seu futebol

A rigor, entendia-se que o jogador chamado de volante deveria ser o atleta com pouca técnica, muita vontade e muita força (que por vezes confundia-se com violência), via-se na figuras de Gattuso, Dunga e até do folclórico Amaral, a ideia do volante ideal, que não aparecia, apenas roubava bolas e protegia a defesa. Lucas Machado, do Doentes por Futebol, explica isso de maneira interessante em seu texto “De Dunga a Xabi Alonso: os papéis se inverteram”. Com a mudança do futebol, começou-se a valorizar a figura do meia defensivo e uma nova escola surgiu com jogadores com grande poder de armação e de passe, além, óbvio, de capacidade de marcação, interceptação e desarme. É o caso de jogadores como Pirlo, Xabi Alonso, Toni Kroos e tantos outros, dos quais podemos destacar claramente N’Golo Kanté, que além de tudo, tem habilidade. O golaço contra o Manchester United prova isso.

O francês divide ora com Matic, ora com Fàbregas o meio campo do Chelsea. Como roubador de bolas é incrível ver que desde sua estréia na Premier League ele nunca tomou um cartão vermelho. Kanté consegue ser duro e tenaz na marcação, entretanto, sem apelar para violência e deslealdade, não comprometendo o seu próprio time. A sua média de faltas é de 1,26 por jogo, nessa temporada. A grande parte de seus desarmes são sem falta e, talvez, esse tenha sido o grande segredo do Leicester campeão. Os Foxes claramente jogavam sem a bola, e pegavam seus adversários na habilidade e precisão de Mahrez, velocidade de Albrighton e Vardy, mas quase sempre com desarmes do baixinho francês na intermediária defensiva. No certame de 2016-17, Kanté é o quarto jogador com mais desarmes (60), ficando atrás apenas de Gueye do Everton (92), Henderson do Liverpool (74) e Romeu do Southampton (66).

Nessa temporada, o jogador tem uma média de 89% de acertos nos passes que faz, uma taxa alta para quem joga na área mais conturbada do campo. Talvez por jogar em um elenco cheio de estrelas, Kanté se destaque menos do que no surpreendente Leicester da última temporada. Entretanto, sua importância tem sido a mesma, ajudando o time a se manter seguro atrás e com transições rápidas, como é a característica do Chelsea de Conte.

Se os Blues vão se sagrar campeões nós ainda teremos que esperar mais quatro meses para saber, mas que podemos notar que o “Fator Kanté” é verdadeiro, isso sim. Conte mostrou que acertou na contratação do atleta que ainda tem muitos anos para se aprimorar, levando em conta os seus poucos 25 anos.

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Paulistano, 25 anos, estudante de Jornalismo na FAPCOM e apaixonado pela Premier League.

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