Títulos não vêm por acaso. Técnico que conquista títulos em sequência, por equipes distintas, merece muitos créditos. E quando essas equipes não estão habituadas a figurar entre os grandes, e após sua saída nunca mais conseguem voltar ao topo, o treinador ganha o status de lenda.

E é sobre uma lenda que vamos falar nos próximos parágrafos. Hoje, o Memória PL Brasil contará um pouco da história de Brian Clough.

Brian nasceu em Middlesbrough, em 21 de março de 1935. E, pelo Boro, começou sua prolífica carreira como jogador. Sim, jogador. Muitos fãs do futebol inglês possivelmente não sabem, mas Brian Clough foi um excelente atacante. Em seis anos atuando pelo Middlesbrough, Brian disputou 213 partidas, marcando incríveis 197 gols. Porém, na mesma medida em que era artilheiro, Clough também era problemático. Ele sempre tinha atritos com seus colegas de clube, e vivia pedindo para ser transferido. Até que o Middlesbrough cedeu aos pedidos do seu atacante, e Brian foi vendido ao Sunderland, em 1961.

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Com a camisa dos Black Cats, Brian continuou demonstrando seu faro de gol: foram 54 tentos em 61 jogos. Mas a carreira de Brian dentro dos gramados teve um triste e antecipado fim. Em um jogo contra o Bury, no Boxing Day de 1962, disputado sob muita chuva e frio, Clough chocou-se com o goleiro Chris Harker e rompeu os ligamentos do joelho. Brian ainda voltaria aos gramados dois anos após a lesão, em 1964, mas não suportou as dores, jogando apenas três partidas, e aposentando-se aos 29 anos, e com dois jogos pela seleção inglesa.

Apenas um ano após sua aposentadoria, Clough iniciou sua carreira de treinador, dirigindo o modesto Hartlepool United, então na 4ª divisão, tendo como seu assistente o ex-goleiro Peter Taylor, que o acompanharia durante quase toda sua trajetória. Os resultados não foram expressivos. Um oitavo lugar como melhor posição, e a saída do clube em 1967.

Elenco do Nottingham Forest campeão europeu (PA Images/Archives)

Brian não ficou muito tempo desempregado. Ainda em 1967, assumiria o comando do Derby County, que há anos estava estacionado na 2ª divisão inglesa. Clough levaria mais tarde consigo dois importantes jogadores do Hartlepool: o goleiro Les Green, e o jovem meia John McGovern, um dos jogadores preferidos de Brian, que levaria John consigo em quase todas as suas mudanças de clube.

Na sua primeira temporada pelos Rams, Brian não levou o time além do meio da tabela. Porém, o elenco do Derby estava em um completo processo de reformulação. Para a temporada seguinte, Clough manteve no clube apenas quatro jogadores que já estavam lá antes da sua chegada, e realizando uma série de contratações, além de Green e McGovern. E as mudanças funcionaram. Em 1968/69, o Derby County conseguiu o título da Division Two, com direito a uma série invicta de 22 jogos.

Em sua primeira temporada na elite, Clough consegui levar o Derby a um ótimo 4º lugar. Porém, devido a problemas financeiros, o time foi suspenso das competições europeias na temporada seguinte, e ainda foi multado em 10 mil libras. Em 1970/71, o Derby não passou de um 9º lugar. Destaque apenas para a contratação do zagueiro Colin Todd, junto ao Sunderland.

Na temporada seguinte, pela primeira vez em sua história, o Derby County disputava, de fato, o título inglês. Em uma disputa ferrenha com Leeds United, Liverpool e Manchester City, o Derby superou seus rivais por apenas um ponto, conquistando seu primeiro título inglês, com uma vitória por 1 a 0 sobre o Liverpool no último jogo.

Uma das coisas que Clough carregou da sua carreira como jogador foi seu lado polêmico. Após o título, Brian se envolveu em algumas confusões com a diretoria do Derby, como exigir que pudesse levar sua família em uma viagem de pré-temporada à Holanda e Alemanha Ocidental, ou a contratação de David Nish, por 225 mil libras (valor recorde à época), sem o consentimento da diretoria. A temporada de 1972/73 não foi das melhores para o Derby.

O time não conseguiu defender o título inglês, terminando apenas na 7ª posição. Na Copa dos Campeões, a participação foi boa. Na primeira fase, o Željezničar, da Iugoslávia, ficou pelo caminho. Nas oitavas de final, uma acachapante vitória contra o Benfica por 3 a 0, e um empate em Lisboa levaram os Rams até as quartas, onde o Spartak Trnava, da Tchecoslováquia, foi a última vítima do Derby. Nas semi-finais, o time parou na Juventus e teve encerrado seu sonho europeu.

O estilo polêmico de Clough, além dos constantes atritos com o presidente do clube, acabou levando as saídas dele e de Taylor do Derby, no final de 1973. Logo depois, a dupla assumiria o comando do pequeno Brighton & Hove Albion, da terceira divisão (único time onde Clough e John McGovern não estiveram juntos). Essa passagem não foi das mais marcantes. Durou menos de um ano, não teve resultados expressivos e acabou quando Brian recebeu um convite para treinar o Leeds United, então campeão inglês, em substituição a Don Revie, que havia saído para a seleção inglesa.

Em sua primeira chance em um time grande, e sem Taylor, que permanecera no Brighton, Brian não durou muito no Leeds. Foram apenas 44 dias de resultados ruins e brigas com os principais jogadores da equipe. Clough era um ferrenho crítico de Don Revie e seu estilo de jogo, e não media suas palavras. Os jogadores permaneceram leais ao antigo treinador, e não havia clima para a permanência de Brian. Apesar de rápido, o período de Brian Clough no Leeds United ficou marcado no futebol inglês, e rendeu até um filme, o excelente Maldito Futebol Clube (The Damned United, em inglês). Fica a dica cultural para o caro leitor.

Em janeiro de 1975, Brian voltaria ao comando de um clube da Division Two. Era o Nottingham Forest, que ocupava apenas a 13ª posição na tabela. O começo da trajetória de Brian no Forest foi discreto. 16º lugar em 1974/15 e 8º lugar em 1975/76. Para a temporada seguinte, Brian realizou uma vital contratação para o sucesso do Forest nos anos seguintes: seu velho auxiliar, Peter Taylor, que ainda estava no Brighton. Juntos, técnico e assistente terminaram a Division Two em terceiro lugar em 1976/77, conseguindo o acesso.

Outro fato pouco conhecido é que a passagem de Clough pelo Forest quase terminou logo após a promoção. Brian foi entrevistado para assumir nada menos do que o English Team, outra vez no lugar de Don Revie, mas o negócio acabou não se concretizando. Bom para o Nottingham Forest.

O primeiro ano do Forest no retorno à primeira divisão foi simplesmente espetacular. Com um elenco sem grandes nomes, conquistou o título inglês com sobras em relação ao Liverpool, que defendia o título. De quebra, o Forest ainda derrotou o Liverpool também na final da Copa da Liga, faturando mais uma taça.

Para a temporada 1978/79, Brian orquestrou uma transferência histórica. Trouxe para o Forest, o atacante Trevor Francis, primeiro jogador na história a ultrapassar o valor de um milhão de libras, junto ao Birmingham. O time sucumbiu ao Liverpool na busca pelo bi campeonato nacional, mas mesmo assim a temporada seria histórica para o Nottingham Forest. O time renovou o título da Copa da Liga e faria história na Europa.

A campanha na Copa dos Campeões começou justamente contra o Liverpool, atual campeão. Vitória por 2 a 0 em casa e um empate sem gols em Anfield despacharam mais uma vez o time de Merseyside. Nas oitavas de final, o adversário foi o AEK Athens, da Grécia, que foi eliminado com tranquilidade, vitórias por 2 a 1 fora e 5 a 1 no City Ground.

Na sequência, o enfrentamento foi contra o Grasshopper, da Suíça. Na ida, no City Ground, mais uma goleada: 4 a 1. Na volta, um empate por 1 a 1 garantiu o Nottingham Forest entre os quatro melhores time da Europa (o gol do Forest na Suíça foi marcado por Martin O’Neill, atual técnico do Sunderland).

Pelas semis, um duelo muito equilibrado contra o Colônia, da Alemanha. No City Ground, os alemães abriram 2 a 0, o Forest conseguiu uma grande virada, mas no finalzinho sofreu o empate amargo: 3 a 3. Na Alemanha, em jogo muito pegado, Bowyer marcou o gol único da partida, levando o time até a grande final.

No jogo decisivo, contra os suecos do Malmö, em Munique, a milionária contratação de Clough fez valer todo o esforço feito para trazê-lo ao clube. Steve Francis fez, de cabeça, o único gol da decisão, dando o título europeu ao clube que até então era totalmente desconhecido fora da Inglaterra.

Em 1979/80, o Forest falhou na busca pelo tricampeonato da Copa da Liga, perdendo a final para o Wolverhampton. O Campeonato Inglês também ficou mais uma vez com o Liverpool de Kenny Dalglish. Mas o Nottingham Forest ainda defenderia seu título mais importante.

Os suecos do Öster e os romenos do Argeş Piteşti foram presas fáceis nas fases iniciais. Nas quartas, contra o Dynamo Berlin, um susto. Derrota no jogo da ida, no City Ground por 1 a 0. Mas Francis brilhou na Alemanha, marcou 2 gols na vitória por 3 a 1, classificando o Forest. Pela semi final, contra o Ajax, vitória por 2 a 0 na Inglaterra e sofrimento para segurar a derrota por 1 a 0 na Holanda, que valeu a classificação para a final.

O jogo decisivo foi disputado no Santiago Bernabéu, em Madrid. O adversário era o Hamburgo, que havia trucidado o Real Madrid na semi final. Mas com um gol de John Robertson, o Forest venceu por 1 a 0 e prolongou seu reinado europeu. Com o segundo título continental, ficou provado que a façanha do ano anterior não foi um mero acidente de percurso. Brian Clough conseguiu em 4 anos tirar um time, até então de pouca expressão, da parte de baixo da tabela da segunda divisão de seu país, levando-o ao bicampeonato europeu.

Nos anos seguintes, com o envelhecimento de alguns jogadores e a saída de outros, o Forest não conseguiu manter o ritmo, e ficou afastado das disputas por títulos, ficando sempre no meio da tabela no Campeonato Inglês.  Outro baque sofrido por Clough foi a aposentadoria do escudeiro Taylor, em 1982.

As últimas glórias de Brian vieram no final da década de 1980. Em 1988/89 o Forest foi campeão da Copa da Liga, derrotando na final o Luton Town, terminou em terceiro lugar no Campeonato, além de alcançar a semi final da FA Cup, perdendo para o Liverpool, em confronto que ficou marcado pelo trágico incidente em Hillsborough. No ano seguinte, veio o bicampeonato da Copa da Liga, com vitória sobre o Oldham na decisão.

Nas duas temporadas subsequentes, Brian ainda levou o Forest a duas finais de Copas, mas acabou derrotado em ambas. A FA Cup de 1990/91 foi para o Tottenham, e a Copa da Liga de 1991/92 para o Manchester United. Na temporada segunite, a primeira da Era Moderna da Premier League, Clough não conseguiu evitar o rebaixamento do Forest à Championship, aposentando-se na sequência.

No final do seu período no Nottingham Forest, Brian começou a enfrentar problemas sérios com o alcoolismo, necessitando de um transplante de fígado em 2003. Um ano depois, porém, Brian não resistiu a um câncer no estômago, e faleceu aos 69 anos. Embora não teve sucesso na sua única passagem por um time grande (Leeds), Brian Clough conseguiu com que dois clubes até então pouco relevantes a nível nacional lutassem de igual para igual com os gigantes do futebol inglês durante anos, levou o pequeno Forest ao bicampeonato europeu, e depois da sua saída, tanto o Derby quanto o Forest jamais voltaram ao nível em que estiveram com Brian no comando, o que atesta de uma vez por todas o talento e a importância de Brian Clough.

1 COMMENT

  1. Cara, muito bom seu texto. Infelizmente eu assisti somente a metade final de the damned united mas já achei a história incrivel. Futebol é um negócio de outro mundo e agradeço a você por trazer o relato da vida de um gigante como ele. Parabéns.

  2. Parabens pelo texto. Sou torcedor do Forest e criador do twitter (@NFFCBrasil) sabia de toda trajetória do Clough mas não tão detalhada assim. Excelente texto, vou indicar pelo twitter. Parabens!

  3. Muito legal! Já tinha conhecimento desse time do Forest bicampeão europeu, mas não sabia a importância desse técnico! Fantástico! Obrigado por compartilhar essa história!

  4. Excelente texto, já havia conhecido a história do Brian Clough através do filme Maldito Futebol Club e desde então me tornei fã deste treinador espetacular.

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