Em um dos jogos mais emocionantes da temporada, o Bournemouth bateu o Liverpool por 4×3 (Reprodução/ESPN)

Há times que conquistam nossos olhares e corações pelo futebol bem jogado. Outros pelo elenco recheado de estrelas, outros pelo lindo estádio, outros pela história riquíssima em títulos, outros até mesmo pelas cores do clube. Enfim, são muitas razões. Todavia, há outros clubes que nos conquistam exatamente por serem pequenos e estarem trilhando um caminho de glória com ascensões meteóricas rumo a grandes histórias. Aconteceu aqui no Brasil com a Chapecoense, que acabou sendo um “segundo time” de vários brasileiros mesmo antes da tragédia irreparável que tirou a vida de 71 pessoas que estavam naquele voo. Na Inglaterra, porém, há um time com uma história similar e que vem conquistando a simpatia de muita gente. Esse time é o Bournemouth.

Bournemouth é uma cidade não muito grande situada no litoral sul da Inglaterra. Seus 183 mil habitantes convivem com muitos turistas, especialmente em épocas de verão, quando as praias do sul recebem muitos estrangeiros, além de ingleses vindos de Londres e de outras regiões próximas. A maior cidade próxima é a portuária Southampton (53 km). Para chegar a Londres, um percurso de 173 km é necessário. Até há poucos anos, a cidade era conhecida apenas por sua beleza praiana, agora, entretanto, o futebol começa a tornar a cidade um ponto importante na terra da Rainha.

Tudo começou em 1890, com o time de futebol local chamado Boscombe St John’s Institute Football Club (Boscombe é uma cidade vizinha a Bournemouth), um pequeno clube amador que acabou fechando suas portas nove anos depois. Para suprir a carência do esporte na cidade, em 1902 é fundado o Boscombe Football Club, que fazia seus jogos no parque municipal chamado King’s Park, muito próximo de onde seria futuramente o Vitality Stadium.

O ano de 1910 foi muito importante para a história da equipe. Nesse período, o então presidente J.E. Cooper-Dean arrendou um terreno sem uso perto do parque citado e construiu a casa do time, chamado de Dean Court, em sua própria homenagem. Naquela mesma época, o clube ficou conhecido como os “Cherries” (“os cerejas”). Para tal apelido há duas explicações: 1) A própria cor do uniforme com seu vermelho cereja e, 2) O estádio Dean Court foi construído perto de vários pomares de cereja da região, por isso, houve uma identificação que acabou sendo a marca registrada do time sulista.

Ainda em 1910, o clube assinou contrato com seu primeiro atleta profissional: B. Penton, vindo do Southampton por incríveis dez libras! Como mudam os tempos!

Já em meados de 1923, durante uma reunião em um pub que os atletas usavam como vestiário para ir aos jogos, o nome do clube é mudado para Bournemouth and Boscombe AFC e em seu primeiro jogo com o novo nome eles perderam por 3 a 1 para o Swindon. Isso foi em 25 de agosto de 1923. Três anos antes, o clube tinha conseguido uma vaga para fazer parte da liga oficial da Inglaterra, indo para a terceira divisão.

Programa de jogo entre Bournemouth x Brighton & Hove Albion, de 1972

Os Cherries sempre andaram entre a terceira e a quarta divisões da Inglaterra e nunca foram muito expressivos nas copas. Até que na FA Cup da temporada 56-57, após bater vários times grandes, incluindo da primeira divisão, eles viraram sensação e entraram para a galeria dos “Giant Killers”, mas foram eliminados em casa pelo Manchester United.

Ted MacDougall, uma das maiores lendas do clube em partida contra o Brighton & Hove Albion (Reprodução)

A queda para a quarta divisão em 1970 foi considerada pelos próprios historiadores do clube uma bênção, pois ali houve a mudança do nome do clube para o que conhecemos hoje como AFC (Athletic Football Club) Bournemouth além de ser a ocasião em que um lendário técnico assumiu o comando: John Bond. Sob seu comando, os Cherries tiveram um ataque poderoso que contava com Ted MacDougall (fez 49 gols na temporada 70-71), além de Phil Boyer e Mel Machin (conhecido como SuperMac) e foram vice-campeões da quarta divisão. Fala-se que era um espetáculo ver a equipe jogar nessa época e, como resultado, os estádios enchiam com cerca de 24 mil pessoas por jogo. Entretanto, o que era bom durou pouco e o artilheiro da equipe saiu para o Manchester United, abatendo os companheiros. Pouco tempo depois, o próprio técnico saiu para treinar o Norwich, o que acarretou em uma debandada dos atletas. O Bournemouth, então, voltou a figurar entre as agremiações sem muita expressão.

O técnico John Bond destacado em cima. O futuro técnico Harry Redknapp destacado abaixo (Reprodução/EMPICS Sport)

Em 1982, em mais uma tentativa frustrada de se firmar no futebol inglês, George Best, do qual falamos AQUI, foi contratado pelo Bournemouth e fez apenas cinco jogos, sem marcar um gol sequer. Ele ficou no clube até o final da temporada 1982-83, quando se aposentou do futebol. Ele tinha 37 anos. Veja, o noticiário local anunciando sua chegada no vídeo abaixo.

Em seus últimos dias como jogador, George Best foi para os Cherries (Reprodução/ManUtd)

Em 1984 veio o primeiro título da história do clube. Em uma final contra o Hull City pela Football League Trophy, uma copa de mata-mata em que só participavam times da terceira e da quarta divisões, o Bournemouth venceu os Tigers na finalíssima por 2 a 1 e levou o título da competição. O segundo título veio na temporada 1986-87, sob o comando do ex-jogador do rubro-negro sulista, Harry Redknapp. Os Cherries venceram a liga da terceira divisão e alcançaram o acesso para a segunda impondo o recorde de 97 pontos!

Harry Redknapp deu o primeiro título de liga do clube (Reprodução/DailyMail)

De volta à terceira divisão, nos anos 90, dificuldade financeiras assolaram o clube. Tanto é verdade que os próprios torcedores fizeram um fundo de dinheiro colaborativo para ajudar no momento de recessão. Mesmo assim, consta no próprio site oficial da equipe, o Bournemouth esteve a apenas 15 minutos de declarar falência formal. Em um movimento rápido, o então presidente Trevor Watkins fez acordos para conseguir usar o fundo dos torcedores e manter a esquadra viva. O esforço valeu a pena. Na temporada seguinte, o quase falido clube alcançou as finais dos playoffs, levando 34 mil torcedores ao Wembley, em um dia memorável para seus fãs.

Em 2008, o a equipe quase faliu novamente por problemas administrativos e só foi salvo por causa do presidente Joff Mostyn que teve de assinar um cheque ao vivo na televisão de £100 mil de seu próprio tesouro para salvar o rubro-negro. Ainda assim, eles foram rebaixados à quarta divisão. E é exatamente aqui que começa uma das histórias mais sensacionais dos últimos anos no esporte!

Com a temporada 2008-09 já em andamento, Eddie Howe assumiu o comando do plantel com apenas 31 anos, sendo o técnico mais jovem da época. Aquele foi um ano difícil para os Cherries que só escaparam do rebaixamento na penúltima rodada, fato que é conhecido até hoje como “The Great Escape” (O grande escape). Após essa façanha, um elemento fundamental entra na história: a compra de 50% do clube por Adam Murry, que permitiu mais investimentos em toda infraestrutura do clube. Após assegurar sua permanência na quarta divisão, Howe teve sua temporada completa como técnico e logo levou o time ao vice-campeonato, garantindo o acesso à terceirona com duas rodadas de antecedência.

Eddie Howe, um dos personagens mais importantes da história do clube (Reprodução/SkySports)

No meio do torneio de 2010-11, Howe sai do comando do time para treinar o Burnley, mas volta ao Bournemouth em outubro de 2012, durante a temporada 2012-13. Além de tirar o time do perigo do rebaixamento, ainda consegue fazer sua equipe vice-campeã, alcançando a segunda divisão após mais de 20 anos. É nessa época que o logo de clube é modernizado para o que conhecemos hoje.

Símbolo atual do time                            (Reprodução/Wikipedia)

Na sua primeira temporada na Championship (segundona inglesa), em 2013-14, o décimo lugar foi muito comemorado pelos fãs. Já no campeonato seguinte, o inacreditável aconteceu e o Bournemouth foi campeão! Era a primeira vez na história que os Cherries chegavam à elite do futebol inglês, considerado por muitos o campeonato mais difícil e disputado do mundo! Foram apenas sete anos que levaram o inexpressivo Bournemouth da quarta à primeira divisão!

Bournemouth campeão da Championship (Reprodução/YouTube)

Hoje, a equipe comandada por Eddie Howe está na sua segunda participação na Premier League. Tendo terminado o campeonato passado em 16º, livrou-se do rebaixamento e, tem encantado a pequena cidade litorânea que nunca tinha presenciado tão grandes times e tão caros jogadores em seu modesto estádio – agora renomeado pelo patrocinador – Vitality Stadium. Na atual temporada, os Cherries investiram no mercado e contam com a participação de Jack Wilshere, emprestado do Arsenal, que vem fazendo bons jogos e ganhado muitos minutos em campo. Além disso, estão às portas de assinarem contrato com o goleiro Begovic, do Chelsea para substituir ou fazer sombra para Boruc. É uma equipe que joga de forma honesta, ciente de suas limitações técnicas. Mas encontra na velocidade de Fraser, na força de Afobé e King, seus principais aliados para manterem-se na elite do futebol inglês.

Festa dos torcedores rubro-negros antes do jogo contra o Manchester United pela Premier League (Reprodução)

Os vermelhos sulistas têm uma história parecida com a da Chapecoense, aqui do Brasil, por sua ascensão meteórica. Além disso, podem gabar-se do fato de nunca terem caído da primeira divisão. Fato que, querendo ou não, os coloca numa lista seletíssima de times ao redor do mundo.

 

 

 

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Paulistano, 25 anos, estudante de Jornalismo na FAPCOM e apaixonado pela Premier League.

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