Juventus x Bayern de Munique, o encontro de gigantes (Marco Luzzani/Getty Images)

“Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”, já diria o Tio Ben ao rebelde Peter Parker momentos antes de morrer em um assalto. Se quisermos adaptar essa frase ao mundo da bola é justificável que fique algo mais ou menos assim: “Com grandes investimentos, vêm grandes responsabilidades”. Isso tem sido, direta ou indiretamente, veiculado com a grande onda de críticas a dois personagens importantes nessa Premier League: Pogba e Guardiola.

O meio-campista francês chegou com badalação e logo elevou o recorde de venda de camisas do clube. Paul Pogba desembarcou em Manchester como uma verdadeira estrela que retornava para casa após sair do mesmo clube em 2012. Na época, Sir Alex Ferguson não viu tanto potencial no jovem e o liberou de graça para a Juventus. Lá ele começou a se mostrar ao mundo com seu futebol alegre, suas arrancadas e dribles característicos.

Fez ótimas temporadas pela Juve, foi titular da seleção francesa da Copa do Mundo de 2014, chegou na final da Champions League na temporada 14/15 e foi ganhando visibilidade. No meio do ano passado, Pogba retorna ao lar em Manchester, dessa vez como o jogador mais caro da história do futebol (os Red Devils pagaram cerca de £89 milhões ou €105 milhões).

A valorização de Pogba. O valor de mercado dele está abaixo do valor pago pelo Manchester United. Hoje em dia ele vale cerca de €80 milhões (Transfermkt)

Ele chega com um pouco de desconfiança pelo seu preço e por uma possível dificuldade de adaptação ao futebol inglês. E começou mal. As primeiras partidas do meia não foram de encantar. Parecia lento, mal adaptado, tinha dificuldade em chegar a frente e em fazer seus dribles desconcertantes. Aos poucos começou a melhorar, marcou seu primeiro gol e foi anotando mais alguns.

Começou a se entrosar com Herrera e Ibra, começou a dar assistências e mostrar um jogo mais leve. Até que veio o fatídico jogo contra o Liverpool, o maior clássico da Inglaterra. Pogba subiu para afastar uma bola em uma cobrança de escanteio, se atrapalhou e acabou colocando a mão na bola, dentro da área! Pênalti para o Liverpool! Milner converteu a cobrança e o United foi buscar o empate no fim do jogo. Esse jogo foi particularmente desastroso para o atleta que cometeu a infração e fez uma exibição ruim, errando muitos passes, errando chutes e não encaixando as fintas. A partir desse dia, uma explosão de haters surgiu na internet.

Parece que estavam apenas esperando um momento ruim para dar as caras. Muitas críticas relacionando o seu preço ao seu futebol, falando que era um lixo, e coisas do gênero. Acontece que o mercado inglês está absurdamente inflacionado. Basta olhar os £47 milhões pagos em John Stones, os £30 milhões pagos em Bolasie, dentre outros. Sem contar que, de fato, Pogba vinha de uma liga menos competitiva em que a Juve reinava soberana, tudo isso somado ao estilo de jogo diferente das equipes em que o meia passou requerem um tempo para adaptação.

Pogba em uma bicicleta contra o Boro (Divulgação/Getty Images)

Hoje, o jogador é um dos personagens principais do time, sendo o atleta que mais deu passes corretos na equipe (1522), além de ser o vice artilheiro (4 gols), o terceiro em desarmes (37), o primeiro em ganhar disputas de bola aérea (63), sem contar o fato de ser o segundo jogador que mais chuta ao gol, 72 vezes. Me parece um pouco ingênuo querer o mesmo tipo de desempenho em campeonatos tão diferentes. Titular absoluto que é, Pogba vem deixando sua marca e fazendo bem ao time sendo uma boa opção para o meio dos Diabos Vermelhos.

Outro personagem que vale a pena revermos nossa postura é Pep Guardiola. O catalão era especulado em diversos times e até em seleções, mas acabou fechando com o Manchester City antes mesmo da temporada anterior finalizar. Guardiola é visto por muitos como um revolucionário do futebol, o homem que trouxe o meio de campo de volta às partidas, o verdadeiro sucessor e aprimorador do “futebol total” da Holanda de Cuyff, em 1974. Suas passagens pelo Barcelona e Bayern de Munique não serão apagadas das memórias dos torcedores tão cedo. Com a base campeã do Barcelona, a Espanha ganhou a Copa do Mundo de 2010, além das Eurocopas de 2008 e 2012. O futebol voltava a ver um time que prezava pela posse de bola e passes precisos. Isso, de fato, irritou muita gente.

Muitos fãs do futebol mais físico e brigado detestam e condenam o estilo de Guardiola, chamando de “futebol de boutique” e outros termos esdrúxulos, sem conhecer um pingo da história do futebol que mostra que o futebol de passes vem desde cerca de 1870 com um dos primeiros times do mundo, o escocês Queen’s Park, que já praticava o estilo de toque de bola rápido e com pouco contato físico. Mas nesse caso, víamos um Guardiola praticamente soberano em seu reinado na Espanha e, subsequentemente, na Alemanha. Pep afirmou que estava a fim de um desafio novo e excitante. E que desafio ele arranjou!

Guardiola ao assinar com o City. Ao fundo, Etihad Stadium (Divulgação/Sky Sports)

A chegada do catalão à cidade de Manchester causou grande furor e esperança na torcida, pois, o melhor técnico do mundo estava para começar uma revolução. Para deixar ainda mais grandioso o cenário, algum tempo depois, José Mourinho é anunciado no rival United. Era tudo o que a imprensa inglesa queria, poder alimentar mais e mais uma suposta rixa e rivalidade entre os dois.

Guardiola começou bem no comando dos Citzens, foram seis vitórias seguidas na Premier League e a classificação garantida de forma tranquila para a fase de grupos da Champions League. Entretanto, o desafio bateu à porta! Em um time com meio e ataque muito fortes, Pep sentiu na pele as lacunas de seu elenco na defesa, nas laterais e no gol. Em uma decisão considerada errada pela maioria dos torcedores ingleses, negociou o ídolo Joe Hart com o Torino da Itália e trouxe Claudio Bravo do Barcelona.

O chileno começou a tomar gol atrás de gol e foi colecionando falhas potencializadas pela zaga insegura e instável. As expressões de Guardiola falam muito sobre sua preocupação com a situação do time. Como um perfeccionista e obcecado por vitórias que é, o catalão não consegue esconder a frustração de sua primeira temporada à frente dos Citzens, como vemos na imagem abaixo.

Guardiola desconcertado ao ver o rumo que tomava o jogo contra o Everton (Reprodução/Sky Sports)

O técnico nunca tinha sofrido cinco derrotas em uma mesma temporada na Liga nacional. Isso já aconteceu nesse período em terras inglesas. Seu índice de vitórias no Barcelona foi de 72%, no Bayern de 88%, no City, entretanto, até aqui, esse número cai para 58,8%. Além disso, ele sofreu a sua maior goleada da carreira em um jogo de campeonato nacional ao perder de 4 a 0 para o Everton, jogando em Goodison Park.

Entretanto, negar a história recente da grandiosa carreira de Guardiola beira a insanidade. Negar seu potencial, sua sede por vitória me parece descabido.

É nítido que estamos diante de duas estrelas em seus momentos de adaptação. Ela é individual, e entendo que não se pode cobrar um jogador ou treinador a se adaptar com a mesma facilidade que o outros. Mas a questão verdadeira é: até que ponto estamos sendo justos com Pogba e Guardiola?

São muitas críticas, muitas delas desrespeitosas e racistas, com relativamente pouco tempo de trabalho feito. Vale a pena entrar na onda de hater de internet só para defender um lado com paixão cega? De onde vem essa raiva gratuita que tantas pessoas têm com esses dois personagens? Não pretendo pontuar nada, apenas deixar aberto para reflexão, pois há muitos problemas em torno dos dois que não podem ser resumidos a eles, somente.

Lembre-se Pogba e Guardiola, vieram buscar desafios e é isso que estão tendo. Talvez ao invés de sermos tão taxativos quanto a uma “má qualidade” dos envolvidos, deveríamos lembrar das palavras que são atribuídas a Ibrahimovic: “Um jogador na sua zona de conforto é um covarde, o grande atleta busca novos desafios para lutar”, isso vale para o técnico também (que curiosamente é um desafeto de Ibra).

Até que ponto estamos sendo justos com Pogba e Guardiola? Deixem os homens trabalharem!

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